Os principais pontos da encíclica do Papa Francisco “Laudato Si”

Desde antes da sua publicação oficial, a primeira encíclica de autoria do papa Francisco, intitulada Laudato Si (Louvado Seja), já despertava a curiosidade de muitos fiéis e a inquietação de alguns setores da sociedade. Oficialmente, essa é considerada sua segunda encíclica, pois foi ele quem assinou e publicou Lumem Fidei (Luz da Fé), no entanto ela foi escrita por Bento XVI e recebeu modestas contribuições do atual pontífice.

Conforme prometido no post anterior, trago nesse texto os principais pontos da chamada pela imprensa “encíclica verde”. A discussão não deve terminar com essas linhas, ainda virão outros textos sobre o documento papal na próxima semana. Além disso, convido aos leitores a continuarem nos comentários a discussão da visão de Francisco sobre o mundo atual e sua crise ecológica e social. Clique aqui para baixar o arquivo completo de Laudato Si.

Cuidar da Natureza, Cuidar dos Pobres

Para o papa Francisco, a humanidade se encontra em uma “espiral de autodestruição onde estamos a afundar” causada por “uma única e complexa crise sócio ambiental”. No primeiro capítulo, “Louvado Seja” aborda uma série de aspectos dessa crise como a degradação humana e ambiental, o eminente esgotamento dos recursos naturais, as mudanças climáticas e as catástrofes naturais. A encíclica apresenta que “uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres“. Na visão do santo padre, os problemas ambientais afetam primeiro e de forma mais incisiva aos mais pobres, como na escassez de recursos hídricos e sua péssima qualidade para o consumo dos mais desfavorecidos. O pontífice retoma uma das bases da Teologia da Libertação ao reafirmar a “opção preferencial pelos mais pobres” (já exaltada em sua exortação apostólica) e clamando sua urgência no auxílio daqueles que morrem agora.

Reinterpretação bíblica e teológica

O papa considera que o descaso com o meio ambiente é uma violência contra a criação de Deus e que as espécies em extinção são criaturas para o louvor do Todo-Poderoso, sendo responsabilidade humana resguardar essas vidas. A encíclica reforça uma revisão bíblica e teológica da responsabilidade do homem (como último ser criado) com a natureza em relação ao texto da criação e autorização do Criador para “dominar a terra”. Francisco considera uma interpretação inadequada a ideia de domínio soberano do homem sobre as demais criaturas. O papa lembra da continuidade do texto do Gênesis ao delimitar a ação do homem na natureza através do “cultivar” (no sentido trabalhar, não explorar) e “guardar” (no sentido de proteger) a Terra. Para o santo padre “Tudo está interligado” e o ser humano peca por colocar-se no lugar Deus, e não como colaborador de sua obra, ao dominar e explorar os bens naturais sem medida.

Cultura do Descarte, Paradigma Tecnocrático e outras críticas

O documento atenta para a necessidade de mudanças e determina um futuro de lixo, ruínas, deserto e catástrofes, caso não se encontrem as soluções necessárias. Associa os desrespeitos à natureza ao consumo desenfreado, classificado como Cultura do Descarte que afeta aos seres humanos e as coisas que se transformam rapidamente em lixo. Cultura essa que incentiva o imediatismo na exploração ambiental e humana em busca do “lucro fácil e rápido”. O papa defende a impossibilidade de sustentar o nível de consumo atual e a busca de novas alternativas de convívio, pois “a Terra parece transformar-se em depósito de lixo”. Reforça ainda a necessidade de quebra do Paradigma Tecnocrático, pois degrada o valor do ser humano e o coloca como vítima do avanço científico. Além dessas críticas, a encíclica ainda abordou diversas outras questões já evidenciadas pelos outros papas e pela Doutrina Social da Igreja como dívida externa, exploração de multinacionais, corrupção, aborto, tráfico humano e de órgãos, prostituição, abandono, narcotráfico, desemprego, concentração de terra e oligopólios. O documento aponta também para uma deterioração ética e cultural e cobra maior envolvimento dos países ricos em virtude das fracas reações na política internacional e pela submissão aos interesses particulares e do mercado financeiro.

Espiritualidade e Conversão Ecológica e outras propostas

No texto, o líder da Igreja Católica encoraja e incentiva os setores envolvidos na preservação e cuidado ambientais. Evidencia também o trabalho de outras denominações cristãs na preservação da vida. O papa conclama aos fiéis e aos não-crentes a uma “corajosa revolução cultural” para contemplar a  inteligência de orientar, cultivar e limitar o poder do ser humano sobre a terra. Encoraja ao desenvolvimento de práticas individuais e coletivas para o desenvolvimento sustentável, com o objetivo de progresso para melhor a qualidade de vida. Ao final, apresenta uma proposta de espiritualidade para a conservação do planeta orientada pelo bem comum ao propor uma conversão ecológica dos fiéis (uma forma de tomar consciência dos pecados cometidos contra o meio ambiente). Apresenta o cristianismo e as demais religiões como caminhos para reencontrar os valores éticos na garantia de vida para gerações futuras e no resgate de nossa própria dignidade.

Bilhete enviado pelo papa aos bispos que receberam a encíclica "Laudato Si". Foto: L´Osservatore Romano
Bilhete enviado pelo papa aos bispos que receberam a encíclica “Laudato Si”. Foto: L´Osservatore Romano
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Comentários

6 comentários em “Os principais pontos da encíclica do Papa Francisco “Laudato Si””
  1. Felipe disse:

    Perfeito! Ficou show o texto.

    Curtir

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