Resenha: Paulo VI: um papa em meio a tempestade

O RETRATO DE UM PAPA HUMANO |

O filme retrata a vida de Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini, filho de tradicional família italiana, que se tornou o papa Paulo VI. Um papa em meio à tempestade de seu contexto histórico, mas também acometido pelas tormentas internas e pessoais, característica marcante em personalidades revolucionárias como a de Montini. Ele foi o responsável por encerrar uma das maiores transformações da Igreja Católica iniciada por João XXIII, o Concílio Vaticano II

Produzido pela televisão estatal italiana (RAI), a história é divida em duas partes: a primeira (comercializada no Brasil em DVD, sob o título de Paulo VI: o papa da misericórdia) destaca a ascensão de Dom Batista (como é chamado) até a chegada ao papado, já a segunda evidencia os 15 anos de seu pontificado, apesar do enredo não linear. Por isso, a resenha também está divida nessas duas partes do enredo.

1ª Parte

A primeira cena intercala a tranquilidade do gabinete papal e a violência do sequestro do Primeiro-ministro italiano. É essa estreita relação entre Paulo VI e o democrata-cristão Aldo Moro que será o fio condutor de toda a história em suas duas partes. Durante as insistentes tentativas de negociação e as obrigações do dia-a-dia no Vaticano, o velho papa é levado a relembrar diversos momentos de sua vida. É através desses resgates temporais que a história se desenvolve.

Antes de ser integrado aos serviços da Cúria Romana, o jovem padre Giovanni leciona aulas de filosofia e orienta os jovens que o cercam. Entre eles, está o brilhante Moro, posteriormente eleito por cinco mandatos como Primeiro-ministro da Itália. Em seus encontros, Dom Batista evoca valores como fé e liberdade e passa por momentos difíceis no contexto fascista que antecede a Segunda Guerra Mundial. Por isso, é chamado para assumir um cargo na Secretaria de Estado do Vaticano de Pio XI.

Em meio a Grande Guerra, morre o papa e naquele momento de incertezas os cardeais decidem rapidamente por Eugenio Pacelli, chefe da Secretaria de Estado e conhecedor da delicada situação diplomática. É o papa Pio XII o protagonista da cena mais emocionante da primeira parte do filme, quando Roma é bombardeada e o pontífice decide deixar o Vaticano e visitar as pessoas, decisão inédita para um pontífice nos últimos séculos. Acompanhado de Montini, seu pupilo na secretaria, o papa se deixa compadecer pelo sofrimento dos atingidos e abre os braços de forma emocionada para entregar-se às pessoas e acolher seu sofrimento.

Ainda na primeira parte, em meio ao Concílio, Montini é escolhido como papa Paulo VI e em sua coroação indica sua insatisfação com os exageros da cerimônia e novamente são vislumbradas algumas reformas do Vaticano II. O primeiro filme acaba de forma abrupta, sem qualquer conclusão ou motivação para a segunda parte, exceto pela curiosidade em se saber o fim das negociações do sequestro de Aldo Moro.

2ª Parte

A segunda parte da história aborda diversos aspectos do papado de Paulo VI e as tempestades que ameaçam a Igreja nos tempos de transformação, além das tempestades que caem sob o pontífice e sua grande responsabilidade. O papa Paulo é apresentado como um viajante (primeiro papa a visitar os cinco continentes), nas cenas da visita à Terra Santa e à África, encontra Madre Teresa de Calcutá. Na Terra Santa, destaque para os seus esforços de diálogo ecumênico na cena do encontro com os cristãos ortodoxos.

As tormentas pessoais na condução do Concílio Vaticano II aparecem no irônico monitoramento das discussões e sua sensível intervenção; na infrutífera discussão com Marcel Lefebvre (bispo líder de grupo dissidente da Igreja) sobre as reformas litúrgicas; e no medo de estar provocando a divisão da milenar instituição da qual é constituído líder máximo.

Paulo VI é apresentado como alguém incompreendido, em particular nos fatos que circundam a escrita e publicação de suas encíclicas. Em Populorum Progressio (Desenvolvimento dos Povos), anima os clérigos a praticarem a revolução do amor e, em vez disso, padres abandonam o sacerdócio e grupos revolucionários encontram no texto uma motivação para a luta armada. Já em Humanae Vitae (Vida Humana), assume uma postura rígida e autoritária na condenação dos métodos contraceptivos e é apontado como um papa instável e em decadência.

Sua última decepção é retratada com o fracasso nas negociações com o grupo extremista Brigadas Vermelhas e assassinato de Aldo Moro, após 55 dias de cativeiro. (Sem preocupação com spoilers, afinal o filme trata de acontecimentos históricos e de conhecimento público.) O difícil término de seu papado com a doença e as várias decepções é retratado de forma emocionante quando adormece em meio à oração. Em sonho, o papa recebe acuado e com sofrimento as críticas dos membros da Igreja e de seu povo, contudo, a personagem de um doente acamado visitado na Terra Santa lhe aparece e o conforta ao mostrar a incompreensão sofrida por Cristo na cruz.

O filme não é uma produção cinematográfica hollywoodiana com altos orçamentos e grandes efeitos especiais, mas tem um enredo envolvente e tocante. Aborda com fidelidade aos acontecimentos históricos e retrata a trajetória de um dos papas mais revolucionários da história de forma humanizadora. Apresenta um Paulo VI em meios a todas as tempestades da vida, assim como qualquer ser humano está sujeito a passar e sofrer. Uma mensagem de esperança para quem não lembra de que todos têm problemas, até mesmo o papa.

FICHA TÉCNICA

Título: Paulo VI: um papa em meio a tempestade

Título original: Paolo VI: il papa nella tempesta

Ano: 2008

Gênero: Drama

Diretor: Fabio Laureti e Francesco Benvenuti

Roteiro: Matilde e Luca Bernabei

Duração: 198 minutos (102+96)

Produção: RAI e Lux Vide

Nacionalidade: Italiana

Elenco: Fabrizio Gifuni, Mauro Marino, Antonio Catania, Mariano Rigillo, Claudio Botosso, Luca Lionello, Sergio Fiorentini, Franco Castellano, Licia Maglietta.

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Comentários

2 comentários em “Resenha: Paulo VI: um papa em meio a tempestade”
  1. Marta Luz Gonçalves disse:

    Já vejo ele Santo e peço a sua intercessão
    amo a igreja católica.

    Curtir

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