Resenha: O homem que não queria ser papa, de Andreas English

UM VATICANISTA CORAJOSO |

Um perfil de Bento XVI escrito pelo mais famoso vaticanista alemão. Assim podemos descrever em uma frase o livro “O homem que não queria ser papa” de Andreas English. A obra é um perfil do papa bávaro e não um perfil do teólogo e prefeito da Congregação da Doutrina da Fé por quase um quarto de século Joseph Ratzinger. Existe uma grande mudança na vida daquele que é escolhido papa e essas mudanças devem ser incorporadas ao estilo do eleito, como o próprio English demonstra em sua narrativa.

São páginas de uma das mais críticas e corajosas análises sobre a história recente da Igreja. A riqueza das contextualizações e as análises dos discursos e da postura do papa Ratzinger somado aos eventos recentes do papado nos levam a crer no complô estabelecido dentro da Cúria Romana contra o próprio papa. English nos faz perceber a importância não só religiosa, mas política, histórica e cultural do cargo de Sumo Pontífice da Igreja Católica.

A história aponta para um boicote praticado pelos poderosos da Cúria contra seu próprio papa. Desta vez, English prefere não apontar um culpado. Nada mais cauteloso, pois da última vez que o jornalista procurou um antagonista para a biografia de João Paulo II, ele acabou escolhendo o próprio Joseph Ratzinger. E isto quase lhe custou o emprego. Hoje, lendo a obra e observando os fatos históricos que a procedem podemos imaginar quais figuras estariam por detrás disso tudo.

Uma pena que o livro tenha sido originalmente escrito e lançado em 2011 em língua alemã. Isso acaba deixando de fora os últimos e cruciais eventos do reinado de Bento XVI que culminaram em sua renúncia no dia 11 de fevereiro de 2013. Depois do lançamento do livro, aconteceram a Jornada Mundial da Juventude em Madri e os escândalos do Vatileaks e das contas do Instituto para as Obras Religiosas (o famoso Banco do Vaticano).

Outro revés da publicação, mas neste caso da edição brasileira é a tradução. Assim como toda a população católica do mundo, as editoras também foram surpreendidas pela renúncia do papa. E da mesma forma que a Igreja Católica se beneficiou com a entrada de novo bispo de Roma, as editoras também foram atrás de seus ganhos. A obra, lançada para o português em 2013 teve duas tradutoras que, provavelmente, dividiram o livro em partes e executaram seu árduo trabalho. A pressa e o pouco tempo para a revisão acabou deixando o livro com alguns erros de digitação ou de concordância, mas nada que diminua o valor da obra ou atrapalhe a compreensão dos fatos costurados em uma bela história por English.

As emoções e as incertezas vividas pelo autor, em especial nos primeiros meses do novo papa, e o drama de Peter, o vaticanista americano desempregado, dão um toque de leveza e humanidade à história. O livro ainda apresenta diversos aspectos do dia-a-dia dos vaticanistas e da rotina da Cúria Romana, além das descrições de vários cartões postais da capital italiana. “O homem que se tornou papa” é um livro detalhado, fruto de um trabalho meticuloso e de boas fontes. Sua leitura nos leva a compreender o fardo que carrega o bispo de Roma.

 

FICHA TÉCNICA

Título: O homem que não queria ser papa

Título Original do Alemão: Benedikt XVI

Autor: Andreas English

Tradutoras: Gisele Andrade e Regina Canova

Editora: Universo dos Livros

Ano: 2013 (1ª Edição; 1ª Reimpressão)

Páginas: 560

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