Resenha: Pode me chamar de Francisco, série Original Netflix

COMO SE FORJA UM PAPA FORTE |

“Pode me chamar de Jorge”, diz o protagonista da série à uma jovem grávida, após ser apresentado como cardeal arcebispo de Buenos Aires no último episódio da série. Assim era Bergoglio em sua Arquidiocese, gostava de ser chamado pelo nome ou por “padre”. Hoje, como papa prefere ser chamado de Francisco ou, no máximo, de bispo de Roma ao invés dos títulos de Sumo Pontífice, Santo Padre, Angélico Pastor. É nesse sentido que a Netflix intitulou a série biográfica de Jorge Mario Bergoglio, o papa, de Pode me chamar de Francisco.

Também considerada como drama, a película dividida em quatro partes apresenta a trajetória de Bergoglio até o papado. Seja no discernimento da vocação e missão, no ensino de literatura para jovens de famílias ricas, no comando da província ou no episcopado, a obra dá a dimensão de que um homem a altura de Francisco não cai do céu por providência divina. Um papa forte é forjado no fogo das dificuldades do dia a dia da Igreja e da sociedade em que vive.

A produção prova sua qualidade já na abertura. Um envolvente tango, composto para a série por Arturo Cardelús, conduz o espectador por imagens da série intercaladas por cenas reais de Viagens Apostólicas do Papa Francisco. (Leia sobre as viagens dos papas ao Brasil.) Os cenários, locações e figurino também constroem com beleza e fidelidade o enredo.

A série apresenta o cardeal Bergoglio ao chegar em Roma e, nas vésperas de sua eleição, o argentino revisita fatos de sua vida. O primeiro período retratado é de sua juventude e discernimento vocacional ao largar a carreira de químico para ser padre. Depois de terminado os estudos de teologia e antes de iniciar seu trabalho sacerdotal, Jorge recebe de seus superiores e orientador espiritual para uma dura lição sobre ambição, soberba e oração. “Rezas mal”, diz seu confessor. E, ao invés de ser missionário no Japão, sonho de Jorge, o jovem padre se torna professor de literatura em Santa Fé.

Para combater a arrogância de seus alunos, o padre ataca com a coragem de trazer o escritor Jorge Luís Borges para a classe. Considerado um dos principais autores da literatura argentina, a série mostra um jesuíta servindo de guia e servo a um literato cego e inflexível em suas opiniões.

Porém é no período de Superior Provincial da Companhia de Jesus que a série demonstra a força de Jorge Bergoglio. Antes mesmo de assumir o cargo, o “General” Pedro Arrupe, Superior do Jesuítas, define Bergoglio em sua essência e atuação singular ao dizer “Forte com a doutrina e flexível com a humanidade”. À convite de Arrupe, Jorge se torna o responsável pelos religiosos de sua congregação na Argentina, Paraguai e Uruguai aos 36 anos.

À frente da congregação, Bergoglio enfrenta a Ditadura Argentina (1976-1983). Com sua força, busca soluções aos padres das periferias perseguidos pela ditadura, luta contra àqueles que colaboram e acobertam os crimes cometidos, não baixa a cabeça diante de coronéis e militares, nem mesmo quando vê sua residência sendo invadida para ser revistada. Com sua flexibilidade, auxilia a juíza Alícia Oliveira, coopera com sua antiga amiga dos tempos de químico Esther Ballestrino, busca soluções junto ao cardeal arcebispo de Buenos Aires, Juan Carlos Aramburu e fala com o general almirante Massera e até celebra a missa para o ditador argentino Jorge Rafael Videla. Em algumas empreitadas tem sucesso, em outras vê seus colaboradores sendo sequestrados e mortos.

Pode me chamar de Francisco apresenta um Bergoglio humano e real. O homem que faz sua própria comida e lava sua roupa mesmo sendo o superior dos jesuítas ou o bispo da capital argentina. Um padre Jorge preocupado com as pessoas, um alguém que chora com a morte dos amigos. Um bispo no meio do povo, pronto para ouvir, paciente para tirar uma foto. Uma pessoa que “dá a mesma atenção a um ou a cem”, como lhe diz o padre na comunidade que visita antes de seguir para o Conclave.

O papa e sua devoção se mostram com delicadeza quando, no frio da Alemanha, em seu doutorado, Bergoglio encontra o calor de uma oração em espanhol. Uma venezuelana apresenta-lhe a Virgem Desatadora dos Nós. Quando recebe o santinho, beija-o, reza e se emociona. Daí em diante, esse título de Nossa Senhora acompanha o religioso em toda sua vida.

Seu período como confessor e diretor espiritual em Córdoba é retratado em poucos segundos quando o cardeal Antonio Quarracino convida Bergoglio para ser bispo auxiliar de Buenos Aires. A partir daí, Jorge Mario Bergoglio se torna um bispo conhecido nas periferias da capital argentina como o padre Jorge. Um prelado que conhece os padres, as comunidades, os trabalhos, o povo. Intervém nas dificuldades, como nos conflitos de ocupação de áreas ilegais.

Uma das cenas emblemáticas da série é quando Bergoglio leva o cardeal Quarracino para celebrar a missa no bairro Retiro. O arcebispo, o bispo auxiliar e seus sacerdotes concelebram de sapatos sujos pelo barro da localidade. O povo da área contestada reza junto com os policiais, antes responsáveis por expulsá-los de lá. Os soldados retiram seus capacetes, se desarmam se unem na mesma oração. Ao fim da missa, vão embora. O povo festeja sua vitória e agradece Bergoglio.

A atuação dos atores também é digna de elogios, em especial dos protagonistas Rodrigo de Serna (Jorge Bergoglio jovem) e Sergio Hernandéz (Bergoglio bispo e cardeal). Hernandéz reproduz com fidelidade até mesmo o andar do papa Francisco. A transição entre jovem e o velho Bergoglio se dá em uma homilia na Catedral. Durante essa fala, na qual se intercalam os dois atores no mesmo púlpito, é possível identificar as características da filosofia de Francisco como o anticomunismo, a valorização das pessoas, a cultura do encontro.

O último episódio é marcado pela cena hilária do café da manhã com a renúncia de Bento XVI. Bergolgio ouve a notícia no rádio atônito. Em seguida, o arcebispo chega na Cúria tumultuada. Sem entender, ele pergunta o motivo para sua secretária que lhe diz: “E se não voltas?” As últimas imagens da série intercalam os rostos do povo argentino na missa em que celebrou na periferia com os rostos do povo na Praça São Pedro. Ao final, as cenas reais reproduzem as primeiras palavras de Francisco no balcão da Basílica São Pedro.

A série Pode me Chamar de Francisco foi produzida pela italiana Mediaset e comprada pela Netflix por 14 milhões de euros. Pela qualidade do material e repercussão, a compra valeu cada centavo. A série tem um ritmo muito dinâmico. Para quem costuma maratonar séries, é muito fácil de assistir em uma única vez por sua dinamicidade e poucos capítulos em relação à séries de muitas temporadas. O enredo lembra o filme de São João Paulo II “Karol, o homem que se tornou papa”, mas com maior qualidade. Mesmo para quem não é católico ou devoto, vale a pena assistir.

FICHA TÉCNICA
Título: Pode me chamar de Francisco
Título original: Chiamatemi Francesco: il papa della gente
Ano: 2016
Gênero: Drama. Biografia.
Direção: Daniele Luchetti e Martín Salinas
Produção: Taodue.
Roteiro: Daniele Luchetti, Martín Salinas e Pietro Valsecchi
Duração: 198 minutos em 4 episódios de temporada única
País: Itália
Elenco: Rodrigo de Serna, Sergio Hernandéz, Mercedes Morán, Muriel Santa Ana, Alex Brendemühl, Maximilian Dirr, Andrés Gil, Marco Di Tieri, José Ángel Egido

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