O bispo está de camisa de clerygman cinza e cruz peitoral sentado à mesa. Ele olha para a esquerda com as mãos abertas enquanto fala. Ao fundo uma janela deixa entrar a luz na sala de reuniões.

Entrevista com Dom Wilson Jönck, Arcebispo da Arquidiocese de Florianópolis

Um Olhar sobre os Papas Bento e João Paulo e sobre a Igreja Arquidiocesana e em Santa Catarina

Conseguir um horário na agenda de um médico especialista pode exigir empenho e um tempo de espera. O que não imaginar da agenda de um arcebispo? Para marcar esta entrevista, aproveitei a vinda de Dom Wilson para Itajaí. Ele veio empossar o novo pároco de São Pedro, na Itaipava, padre Iseldo Scherer. Antes da missa começar, abordei nosso bispo na porta da igreja. Com sua característica sutileza, ele me ouviu e pediu gentilmente que eu ligasse para a Cúria na segunda-feira. Em menos de um mês, eu entrevistava e a Bruna Bertoldo fotografava o Arcebispo da Arquidiocese de Florianópolis na sala de reuniões da Cúria Metropolitana, na capital do estado. Sobre a agenda do especialista, eu não consultei, mas o secretário do arcebispo foi mais benevolente do que eu imaginava.

Um Olhar sobre os Papas Bento e João Paulo e sobre a Igreja Arquidiocesana e em Santa Catarina é a primeira publicação da entrevista exclusiva para o Olhar Vaticano. Neste trecho, Dom Wilson apresenta sua opinião e conta fatos relacionados aos Papas João Paulo II e Bento XVI. O arcebispo fala da possibilidade da criação de novas dioceses em Santa Catarina e até de uma nova arquidiocese. E também de Florianópolis, sua Igreja. O próximo trecho da entrevista será Um Olhar sobre o Papa Francisco e a reforma da Igreja.

Dom Wilson Tadeu Jönck, 67 anos, é Arcebispo de Florianópolis desde 2011. Ordenado sacerdote há 41 anos, na Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus, o catarinense de Vidal Ramos completou 15 anos de episcopado em 2018.

Dom Wilson, o senhor viveu em Roma entre 1986 e 1990 para estudar Psicologia na Pontifícia Universidade Gregoriana. O senhor teve contato com o Papa São João Paulo II? Quais suas impressões sobre esse período?
Como todo cristão, eu tinha o grande desejo de conhecer o papa, de vê-lo, de cumprimentá-lo. A primeira vez aconteceu quando a minha turma de Psicologia se inscreveu para concelebrar a missa com ele. Existia essa possibilidade só que tínhamos que esperar quando eles nos chamassem. Em um belo dia, na véspera, nos disseram: amanhã estejam às cinco e meia no Vaticano. E lá, então, celebramos a missa com o Papa João Paulo II. Depois, tivemos uma rápida conversa com ele, tiramos a fotografia e viemos felizes para casa.
Em outros momentos, me lembro de estar com o Papa uma vez em Castel Gandolfo e veio um recado que precisavam de padres para atender confissão e eu estava em casa e me prontifiquei imediatamente. Tive também com o papa em uma audiência em Castel Gandolfo e em outra audiência em Roma. O contato com o papa sempre muito rápido, mas muito gratificante.

O senhor foi escolhido bispo no pontificado de São João Paulo II e nomeado para Tubarão e depois como arcebispo de Florianópolis pelo Papa Bento XVI. Como o senhor observa a atuação desses dois papas recentes da história da Igreja?
Quando fui nomeado era o final do pontificado de São João Paulo II como bispo auxiliar do Rio de Janeiro. E os dois papas são distintos, mesmo que Bento XVI tinha sido grande colaborador de João Paulo II.
O Papa João Paulo II era midiático, alguém de arrebatar a multidão. Alguém que se sentia ao seu natural diante de 100 mil pessoas. Outra coisa do Papa João Paulo II, os primeiros tempos do Concílio Vaticano II, que terminou em 1965, foram um pouco conturbados. Exatamente por causa de uma nova mentalidade, houve uns tempos difíceis para o Papa Paulo VI. E João Paulo II veio e deu essa tranquilizada. Por causa de seu pontificado longo, ele começou a pegar vários temas e começou a apaziguar. Alguns querem dizer que houve um tempo de mais conservadorismo, não sei o que esse termo pode dizer exatamente, mas foi um tempo de estabilizar as coisas na Doutrina. E também no que era o ensinamento do próprio Concílio Vaticano II. Quando terminou o Concílio, tinha-se noções muito gerais e de repente vários temas começaram a ser aprofundados, serem refletidos e receber livros e mais livros. Isso levou uns 10 anos para começar a acontecer. De imediato foi muito achismo. As primeiras mudanças vieram na liturgia. E depois quanto a disciplina, e muitos disseram que o concílio veio para tirar o rigor da disciplina. As coisas vieram muito misturadas.
E o Papa João Paulo II também se notabilizou – não foi ele quem começou, pois Paulo VI já tinha feito – por sair do Vaticano e visitar vários países. Foi assim que esteve mais de uma vez no Brasil. E isso impactou o mundo, receber a visita do papa era algo muito novo e importante que causava grande impacto.
O Papa Bento XVI era uma pessoa tímida, muito inteligente. Mas era o contrário de João Paulo II, porque se encolhia diante da multidão. Em Roma quando era João Paulo II, as pessoas acorriam por sua comunicação, mas quando veio Bento XVI a audiência de quarta-feira não diminuiu. Reunia muita gente. Um público um pouco diferente, eram pessoas que queriam refletir, até pessoas que não tinham uma prática religiosa mais assídua que queriam ouvir e pensar junto. Eu disse até ao Papa Bento XVI em uma de minhas visitas ad limina, eu o agradeci por nos ter dado um discurso. Porque depois do Concílio não havia um discurso e o Papa Bento XVI deu esse discurso para Igreja.

Nós vemos na Europa e na América do Norte dioceses alugando, arrendando e até vendendo igrejas. Os templos são usados por escritórios de arquitetura, advocacia e até academias. Esse processo de diminuição da população cristã e de comunidades é comum no Hemisfério Norte. O senhor não vê um risco na criação de novas comunidades, novas capelas? Poderíamos no futuro ter que enfrentar o mesmo problema de igrejas fechadas por falta de povo?
Olha, nunca se trabalha com medo, mas olhamos para frente. Quando se vai construir uma igreja, não se fica olhando a possibilidade que daqui a pouco o povo vai embora. Não, é para atender naquele momento. A gente sabe que muda, por exemplo, o primeiro fenômeno é visto nas cidades mais antigas. O Centro das cidades mais antigas migra. Então, se você pensar daqui a 200 anos, você não faz nada. E durante esses 200 anos o que você vai fazer? Hoje, nos centros não se vai construir uma nova igreja. Em Florianópolis, não cabe mais uma igreja. A catedral para alguns momentos ela é pequena, mas na maioria dos momentos ela é grande o suficiente para atender a demanda daquilo que é a vida cristã ativa na Arquidiocese de Florianópolis. Essa possibilidade [de fechar ou vender igrejas] sempre pode haver.
Mas o que está acontecendo no Hemisfério Norte é mais grave. É um arrefecimento daquilo que é o Evangelho. Essa mudança de época começa por aí. Se antes os ensinamentos do evangelho estavam no centro, ditavam comportamentos, o modo de ser, hoje começa a passar para um outro centro. Qual é o centro hoje? Que você tenha dinheiro e com o dinheiro você possa fazer o que bem entender. Aí entra uma outra coisa, nós temos muito mais certeza de nossa preocupação com essa situação do que com um templo que ficará vazio ou pouco usado. Porque isso faz mal ao ser humano. Essa é uma convicção que nós temos. Se o filho de Deus veio ao mundo para nos dar essa certeza, quem somos nós para deixar isso de lado e dizer que é bobagem e queremos viver do jeito que nós queremos? Nós sabemos que quando o ser humano viveu e vive do jeito que ele quer ele está cavando a sua sepultura, ele está causando uma catástrofe.
Recentemente estava lendo um livro sobre a evolução do ser humano de como passou de um primata para o homo sapiens e como o homo sapiens não era o único. O fato é que a um dado momento ficou só o sapiens. E por que eles se distinguiram? Primeiro, uma das características do sapiens é que ele tinha um cérebro maior do que de todos os animais. Mas o que mais mudou o ser humano homo sapiens e o que o fez dominar sobre todos os outros é a capacidade de contar histórias que não existem e acreditar nisso. Esse é o grande fenômeno. E isso passa a ser o centro da vida. Então, o que são as histórias de coisas que não existem? São os mitos todos, entra toda a religiosidade e se começa a falar de Deus. Então, ele tem esses conceitos que são determinantes, é a grande força do homo sapiens e isso não mudou.
E por muito tempo esses valores vinham do evangelho no Ocidente. O que te coloca e te dá sentido na vida é aquilo que você não vê, é a fé. Então quando hoje você tira a fé, você vai para algo muito concreto que é ter dinheiro, algo material que me faz feliz. E isso deixa consequências muito negativas no ser humano. E hoje vivemos um pouco disso. Estamos nos empapuçando com o desejo de riqueza.

Falando um pouco mais de sua arquidiocese, Florianópolis não é o maior território em Santa Catarina, mas é a diocese com mais católicos – 1,2 milhão. Quem mais se aproxima é Joinville com mais de 700 mil. Não é interessante a criação de uma outra Diocese? Fala-se em Itajaí, por exemplo. Isso é uma possibilidade?
Sim isso é bem possível. Algumas condições sempre são importantes. O momento correto ele acaba surgindo. Não sei dizer quando, mas acontecerá. Hoje aparece Itajaí, mas pode ser outra região. Você começa a ver no planalto um desenvolvimento muito grande. Uma cidade que me veio foi Campos Novos, por exemplo. Em uma região estratégica muito central e que começa a ter sinais de grande desenvolvimento ao redor.
Criar uma diocese não é uma meta, é uma necessidade. Se cria uma diocese se ela favorecer a vida cristã de uma população. É um favorecimento, não é um privilégio. Geralmente se fala nesse privilégio, nessa conquista, mas não é isso o que faz criar uma diocese.

Outro ponto interessante nessa distribuição de territórios é a existência de apenas uma Arquidiocese em Santa Catarina. Nossos vizinhos Paraná e Rio Grande do Sul têm 4 arquidioceses. Por que Santa Catarina tem apenas uma arquidiocese e 9 dioceses? É possível pensar na elevação da Diocese de Lages? Existe essa possibilidade?
A arquidiocese é outra coisa que se vai criar se for conveniente. Santa Catarina sempre cresceu, mas não é muito grande, por isso viveu essa unidade. Talvez uma coisa que se deva dizer é que o elemento mais forte da unidade de Santa Catarina é o católico. O estado de Santa Catarina até os anos 1950, talvez um pouco antes terminava em Lages. Florianópolis não queria saber o que estava acontecendo em Chapecó. Se pensava exatamente aqui. E também era uma região pouco povoada, pouco desenvolvida. Daí começaram a vir os gaúchos a povoar o Oeste e Meio Oeste.
Quando se dizia nós pertencemos a Santa Catarina o que prevalecia era o vínculo religioso os outros eram muito tênues. O elo era exatamente o fato de pertencer à igreja. Lá tinha uma igreja que pertencia à diocese de Florianópolis e o bispo de Florianópolis a visitava. Nas condições que existam Dom Joaquim visitava tudo. O governador praticamente não ia, não havia deputados para representar a região.
Então, se for conveniente se cria uma nova província. Uma arquidiocese é exatamente isso, quando há mais de uma diocese e elas se unem por alguns interesses, do ponto de vista jurídico isso é muito mais forte. E aí uma delas se torna a sede principal que recebe o título de arquidiocese. De novo, não é uma ambição por uma independência. Se for bom, se cria. Não queremos multiplicar estruturas que depois para governar se torna inviável. Pode ter duas, pode ter três. O que não dá é uma diocese só ser arquidiocese.

Como o senhor vê e define as “forças vivas” da Arquidiocese?
As forças vivas da arquidiocese são todos aqueles que trabalham ativamente, são os agentes que fazem acontecer o dinamismo da vida cristã na diocese. Como ela é organizada, quem vai fazer acontecer. Essas são as forças vivas. Uma coisa é entender isso em termos de diocese, então a gente procura pegar todos esses organismos que existem nas paróquias e nas comunidades e começamos a pensar passos que depois vão acontecer lá nas comunidades. Então, temos reuniões com os representantes de todas essas áreas para pensar a vida da diocese como um todo, não só os setores. Essas são as forças vivas que temos, é com o que a trabalhamos sempre. Isso está em contínuo movimento.

E como o senhor vê o trabalho em suas comunidades e paróquias?
Aí temos que ver qual o resultado, os frutos que tem. Quando nós olhamos como são as comunidades, como são as pessoas temos que dizer que ainda se tem muito o que fazer. Estamos sempre a caminho. Sempre acentuamos algumas coisas mais que outras. E as coisas funcionam assim. Se olhar o que eu acho, eu gostaria que tudo estivesse funcionando melhor. Aqui eu digo tudo mesmo, até o bispo! Gostaria que ele funcionasse melhor. Mas as limitações são pessoais, dos grupos. Mas isso é a Igreja.


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