Continuação: Entrevista com Dom Wilson Jönck, Arcebispo da Arquidiocese de Florianópolis

Um Olhar sobre o Papa Francisco e as reformas na Igreja Católica

Nesta segunda parte da entrevista, Dom Wilson Jönck, Arcebispo da Arquidiocese de Florianópolis, fala sobre Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, suas reformas na Igreja e os reflexos dessas mudanças na igreja arquidiocesana. Também comenta sobre homossexualidade, casais divorciados, a formação sacerdotal e os desafios da evangelização.

Esta entrevista é uma continuação de Um Olhar sobre os Papas Bento e João Paulo e sobre a Igreja Arquidiocesana e em Santa Catarina. Os conteúdos são independentes e pode-se ler na ordem que desejar.

Vamos falar sobre o Papa Francisco. Como o senhor o observa como latino-americano e as intenções do Papa na reforma da Igreja, em especial na reforma da Cúria Romana?
É uma proposta de reforma para toda a Igreja e não só para a Cúria Romana.
O fato de ser latino-americano perde força, porque o papa é o papa da Igreja toda. Nós que temos isso, mas ele era um cardeal e via as coisas na Igreja como os outros cardeais também viam. Não é uma coisa que sai da cabeça do Papa Francisco, ele tem apoio. Agora, como a coisa está sendo feita tem o lado pessoal.
Aqui devemos ver uma coisa, sempre dizemos que é uma época de mudanças. Hoje nós temos uma mudança mais profunda, é uma mudança de época. É um período muito desafiador, porque aquilo que era certeza cultural, não é mais. Hoje aquilo que era certo na vida não é mais e a Igreja deve se dar conta disso. E quando há uma mudança de época, você tem que sair de onde você está e repensar tudo aquilo que foi sua base de sustentação. Isso não é fácil.
E de onde o Papa Francisco tirou tudo isso? Olhando ao redor. Começou a atacar alguns abusos que existiam. Aí entra a própria Cúria Romana que tinha um modo de ser baseado na grandiosidade e que não se discutia e aquilo funcionava, segundo ele, como um privilégio com abusos. Começou a pisar no calo de algumas pessoas e, quando tocou em pessoas, houve o grito. É um pouco do que está acontecendo.
Outra questão é dos casamentos. Olha, não se podia fechar o olho quando a maioria dos casamentos que recebiam o sacramento estavam se separando. E o segundo, terceiro, quarto casamento é uma realidade. O que está acontecendo? Além de a chamar atenção sobre essa realidade, ele disse que nós também precisamos tomar consciência de que todo esse povo são membros da igreja, são cristãos católicos e que não podemos jogar no lixo. Nessa matéria é o que ele realmente está pisando e pedindo para se pensar de forma diferente para sermos autênticos. Não é desfazer o casamento, mas pensar de um modo diferente para chegar até essas pessoas e não simplesmente jogá-las no inferno. E isso sempre é muito intrincado.

Continuando nesse assunto das reformas, gostaria que o senhor comentasse as mudanças propostas pela Exortação Apostólica Amoris Laetitia. Em especial, o esforço da Arquidiocese de Florianópolis em abrir uma pós-graduação em Direito Canônico [no Instituto Superior de Direito Canônico de Santa Catarina] voltada ao Matrimônio.
Esse foi um pedido explícito do Papa. Ele escreveu um Motu Próprio pedindo que se agilizasse aqueles casamentos que poderiam ser declarados nulos. Para haver um sacramento do matrimônio algumas condições são necessárias. Primeiro que seja voluntário, depois que queira receber os sacramentos, depois precisa ser para toda a vida, precisa ter consciência e se aceite ter filhos e educar os filhos na fé cristã. São todas condições para se ter um casamento válido. Ora, se alguém vai para o casamento e diz “isso eu não aceito”, é que não há sacramento do matrimônio. Então, em muitos casamentos nós podemos dizer que nunca houve [matrimônio]. Alguns por ignorância e outros por teimosia mesmo. E esses processos demoravam muito e por muitas razões. Primeiro por precariedade dos tribunais eclesiásticos que são os encarregados de fazer isso. Outros demoravam porque se necessitava pegar testemunho de muita gente. Você envia um convite. E, às vezes, a pessoa mora longe. Então, levava meses.
Em Florianópolis tinha um tribunal e as causas automaticamente teriam que ir para outro tribunal, havia uma segunda instância necessária. Isso tudo demorava muito. O papa disse que não. Será um tribunal só, pode haver uma segunda instância se a parte discordar. Caso se resolva na primeira instância, está resolvida. E quando tem aquela causa que se vê que realmente não houve casamento, não fique chamando muitas testemunhas, acelere. Basicamente, foi o que o papa pediu.
É uma forma de atender as preocupações de muitas pessoas, porque têm vida cristã, participam da igreja ativamente, mas estavam irregulares com um segundo matrimônio uma vez que o primeiro não tinha sido declarado nulo. Abrir essa possibilidade foi um dos caminhos que ele pediu. E aí, então, uma das coisas que nós não tínhamos eram juízes, então vamos preparar os juízes e por isso o curso de Direito Canônico. Ele é uma resposta bem efetiva, uma coisa que estamos tentando fazer.

O senhor acha que a Igreja ainda precisa encontrar uma resposta mais misericordiosa, utilizando uma expressão do Papa Francisco, aos casais de segunda união?
A resposta está ali. O que se vem conseguindo é como colocar ela em prática, como chegar a essas pessoas e como trabalhar. Procurar aplicar aquilo que foi a doutrina cristã do matrimônio de sempre. Como aplicar isso, uma vez que não está acontecendo? Ora, se alguém teve uma primeira união e ela não foi declarada nula, ele não pode casar-se uma segunda vez. Então, como fazer? E muitos casos não poderão, o tribunal vai atender uns tantos, mas muitos se casaram validamente e não tem chance de segunda união. O que vamos fazer? Vamos colocar no inferno? Não. São nossos irmãos, são filhos de Deus, são membros da Igreja efetivos e que temos que trabalhar com eles e andar junto. Coisa que não estava acontecendo, pelo menos como poderia acontecer.

E para os homossexuais? A Igreja precisa de uma resposta mais misericordiosa ou ela já existe e é pouco aplicada?
Olha, a questão dos homossexuais é muito controvertida por tudo aquilo que se criou em torno dos homossexuais. A respeito deles a Igreja é muito clara e há muito tempo. Esse “querer estender” é dizer que eles também são parte da Igreja e que venham e se sintam parte. Quando o Papa declara isso deu-se a entender que a homossexualidade não tem problema nenhum. Não, a homossexualidade, sobretudo quando se entra numa militância, quando se tem uma vida sexual desregrada, não tem o que fazer. Agora o fato de alguém ser homossexual não o tira da Igreja e o que se quer é que eles não se sintam separados da Igreja só porque existe essa característica na vida da pessoa. Não é nem ter um comportamento preconceituoso de dizer: você é homossexual você já está fora, você não presta. Mas também não se pode dizer você é homossexual e pode ter a vida sexual do jeito que quiser. Nem uma coisa nem outra.
Essa é uma coisa que se precisa prestar atenção, qual o ensinamento a respeito da sexualidade? Sempre a castidade. Ser casto. Para o homossexual, para o heterossexual, para o solteiro, para o casado, para o padre. O que é a castidade? É viver a pureza. É ter uma sexualidade harmonizada com aquilo que a pessoas é, com a vida cristã que ela procura viver, com o ensinamento do Evangelho.
É que havia um tratamento um pouco duro, um pouco preconceituoso a respeito dos homossexuais e o Papa Francisco fala o que uma dezena de documentos já falavam antes: que devemos acolher a todos! Como se acolhe os de segunda união, como se acolhe os doentes. São muitas frações do povo de Deus que vivem de uma forma muito própria. Como os presidiários, que só aqui em Santa Catarina são milhares. Eles são nossos irmãos. Não vamos ignorar que eles estão pagando pena, mas vamos até eles. Por que? Porque Deus os ama e vamos aprender a amá-los. Não vamos colocar condições: se você for santinho, eu vou amá-lo. Eu não vou ignorar se ele matou, ele tem que cumprir a pena. Mas nós continuamos visitando porque é um ser humano e acreditamos que estar com ele faz bem. Isso é cristão, é uma obra de misericórdia.
Existem outras frações do povo cristão que têm suas particularidades. Como vivem sua fé os embarcados? Eles vivem no mar quase o tempo todo. Então a vida religiosa deles, a prática é muito quebrada, mas temos que estar com eles. Não podemos dizer que eles não vêm à igreja então são filhos do demônio, não podemos dizer isso! As colônias de pescadores, mesmo no morro dominado por uma facção criminosa têm que entrar lá. Este que está atirando hoje e causando terror é um ser humano. O que vamos fazer? Vamos fechar o olho e dizer que não é nada? Não, vamos dizer a ele que não é bom viver assim. E é assim que vamos viver nossa fraternidade, da mesma forma com os homossexuais.

Ainda sobre as reformas gostaria de falar sobre a formação dos padres. O senhor teve boa parte de sua vida sacerdotal como formador: diretor do Seminário em Rio Negrinho, formador e professor de Filosofia em Brusque e assistente e mestre dos noviços em Jaraguá do Sul. Além disso, o senhor estudou Educação em Varginha. Qual sua visão sobre a formação para os novos sacerdotes. Os seminaristas estão preparados para a sociedade atual?
Aqui talvez devamos corrigir um pouco. Não é esse o objetivo. Às vezes se vê a situação fora e os desafios que não se ignora. Mas se você quiser formar um padre você tem que formar um cristão autêntico e de vida consistente. E a formação trabalha nisso, porque depois você vai trabalhar em situações muito diferentes socialmente falando. Você vai trabalhar numa missão onde não têm estradas, não têm recursos, mas se você é um cristão vai testemunhar a vida cristã ali e será evangelizador. Mas você, de repente, tem operários nos grandes centros urbanos e você precisa testemunhar lá.
O principal e fundamental é que você tenha convicção, seja um cristão autêntico e capaz de motivar os outros. E isso é sempre um desafio. Primeiro porque você não faz isso por pacote. Dizendo que temos vinte aqui e vamos dar uma formação e está pronto. Não, isso se faz com empacotador de supermercado. É uma coisa que vem de dentro. E aí você vai no evangelho e vê qual é o ensinamento e que você começa a viver e incorpora à sua vida. Essa é a formação.

O senhor não acha que é necessário uma reestruturar a formação sacerdotal? O senhor como licenciado em Psicologia pela Gregoriana de Roma não acha que a Psicologia seria uma graduação necessária para o aconselhamento dos fiéis?
Uma não exclui a outra. A filosofia tem uma coisa que é muito importante, mas se nós ficarmos só com ela e querendo que a filosofia te responda e encaminhe não cabe. Mas por outro lado, se você pegar um conceito na psicologia será sempre um conceito filosófico. A linguagem é filosófica. Se eu quero dizer o que é personalidade, eu vou perguntar à filosofia. É ela quem vai me dizer e depois a psicologia vai trabalhar exatamente com aquilo que é a personalidade. Elas têm que trabalhar junto.
Qual o grande problema hoje da psicologia? O afastamento da filosofia. Então fica uma psicologia de casuísmo. Hoje você tem um comportamento que não é bom socialmente e nós vamos dar um trato aqui e corrigir isso aí. Isso só muda a casca, o verniz. Mas se adotar uma coisa mais plena, mais cheia, de dentro também muda a casca fora. Mas se tem uma mudança de dentro, ela é uma coisa muito maior. Mas a psicologia pode nos ajudar e ajudar muito. Eu sou testemunha.


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