A foto mostra dom Rafael em entrevista.

Entrevista com Dom Rafael Biernaski, bispo de Blumenau

Um olhar sobre o Vaticano, a Cúria Romana e os papas João Paulo II, Bento XVI e Francisco

Dom Rafael Biernaski viveu grande parte de sua vida em Roma. De estudante de teologia na década de 1980, o então sacerdote se torna oficial da Congregação para os Bispos, importante dicastério da Cúria Romana responsável pela nomeação e transferências de prelados em todo o mundo. No dia 4 de abril de 2019, fui até Blumenau para saber um pouco mais da vida e da visão eclesial deste homem marcado pelo serviço no Vaticano. Com as fotos de Isabela Corrêa, este primeiro trecho da entrevista o bispo da Diocese de Blumenau deixa a sua visão sobre os Papas João Paulo II, Bento XVI, dos quais foi colaborador, e do atual Papa Francisco. A definição da Cúria Romana e de seus serviços também são revelados com a inteligência e sutileza características de Dom Rafael.

Na próxima semana, o Olhar Vaticano trará a segunda parte da entrevista concedida por Dom Rafael na Cúria Diocesana de Blumenau. O bispo falou sobre sua Igreja e seu povo diocesano e suas impressões sobre as propostas de reforma da Cúria Romana.

Com apenas 7 anos de sacerdócio, em 1988, o senhor foi para Roma estudar Teologia Dogmática na Pontifícia Universidade Gregoriana. Lá o senhor permaneceu por mais de 20 anos, correto?
Um total de quase 22 anos. Então, seis anos de estudos e 15 anos trabalhando no Vaticano. O objetivo era o estudo, o aprofundamento em Teologia para depois retornar e trabalhar no ensino de teologia, na formação dos seminaristas e também para o trabalho pastoral. Depois de alguns anos de experiência em Roma, na continuidade do mestrado e do doutorado, me foi pedido um serviço de um período bastante breve para o Vaticano. Mas depois de inserido neste trabalho breve, também foi pedido uma continuação. Então, de cinco em cinco anos, era feito um novo pedido para eu continuar nesse trabalho no Vaticano, justamente na Congregação para os Bispos, trabalhando como oficial nos processos das nomeações de bispos.

O senhor trabalhou nesses 16 anos somente na Congregação para os Bispos?
Perfeito. Isto é uma das secretarias para a administração do Vaticano. Temos as várias congregações. Realizei também a secretaria de cardeais, fazendo um trabalho pessoal e cuidando também da saúde de um cardeal. Mas sempre como trabalho básico e fundamental o ofício na Congregação para os Bispos.

Quando o senhor chegou a Roma, como descendente de poloneses, encontrou um Romano Pontífice polonês, São João Paulo II. Como foi o contato com esse Santo Padre? Que recordações o senhor tem e qual sua visão sobre seu pontificado?
O encontro realmente com o Papa João Paulo II aconteceu no Brasil, no período da sua primeira visita ao Brasil nos anos 1980, em julho, quando passou por Curitiba. Ali inicia-se esse aspecto. Eu estava encarregado, em Curitiba, como seminarista, como segundo comentarista da missa pontifical do Papa João Paulo II. Ali foi um primeiro momento de contato com o papa e de poder comungar de suas mãos. Eu pensava ser uma coisa extraordinária encontrar o papa, ter esse acesso, mas não imagina que depois iria encontrá-lo uma segunda vez em 1983, em uma peregrinação à Roma em um ano santo e, depois, não imaginava de poder encontrá-lo em 1988 quando ia para estudos. E depois, ainda, de trabalhar com ele por 11 anos. Enquanto ele pontificava, eu trabalhava também na Congregação para os Bispos.
O encontro com o papa Wojtyla, papa João Paulo II, é importante. Importante por sua autêntica relação com Deus e por uma profunda experiência de autenticidade, de verdade, de serviço à humanidade. João Paulo II teve uma experiência de fé profunda em sua vida, de sofrimentos. Esse sofrimento o preparou para a vida, para o ministério, para um verdadeiro relacionamento também com a juventude. Aquela experiência na Polônia, com o sofrimento e a juventude o preparou também para ser papa, com toda profundidade e complexidade em sua vida. O Papa João Paulo II tem uma profunda preparação filosófica, teológica, uma experiência de vida, uma experiência relacional com a juventude, também como autor de teatros. Tudo isso é uma ação de Deus que vai preparando e dando competência a este homem para ele exercer o ministério de Papa por quase 27 anos.
São João Paulo II torna-se santo, ele tem uma influência importante não somente como Papa, mas também nas mudanças das estruturas geopolíticas do mundo. A sua influência na queda do Muro de Berlim, no comunismo, quando em 1979 ele visita a Polônia a partir dali também começa a ruir o regime comunista. E a partir dali, com o atentado que ele sofre. João Paulo II tem uma personalidade forte, jovem, um físico muito forte foi justamente eleito papa muito jovem e o seu pontificado foi um dos mais longos. João Paulo II é um homem de fé, um homem de oração, um homem que transforma, um homem que mexe com a sociedade e com as pessoas, tanto que é proclamado santo. Tive uma experiência profunda que mexe com a minha vida, com a minha existência e que me coloca sempre mais na luz de Deus, na liberdade, na capacidade de servir.

O senhor lembra de alguma situação em especial com São João Paulo II?
Bom, são momentos importantes de audiências, mesmo quando a gente trabalha no Vaticano, na praça São Pedro e na Sala Paulo VI. Tive contatos e experiências nas audiências públicas. Depois, contatos em missas na capela privada, onde às 7 horas da manhã ele celebrava uma missa para 40 pessoas. Ele estava em oração, então terminada sua oração pessoal, tinha a santa missa por uma hora. Depois, claro, também, trabalhando na Congregação para os Bispos, meu trabalho não tinha autoridade decisória, mas prática e de mediação. Eu mediava esse contato entre a nunciatura – o representante do Papa no Brasil -, o cardeal prefeito e o Papa. Mediando toda a documentação para que os processos de nomeação de bispos e decisões importantes da Igreja passassem para o Papa. Então, sinto uma grande importância nesses 16 anos trabalhando na mediação e verificação de documentação e processos de uma ação decisória do Papa para a região do Brasil e para outras regiões do mundo ao participar desse trabalho na Congregação para os Bispos.

Já com o Papa Bento XVI o senhor tem outras afinidades. Além de ter sido o pontífice que o elegeu para o terceiro grau da ordem, o papa emérito também é um teólogo de dogmática e um homem da Cúria Romana como o senhor. Como Dom Rafael vê o cardeal Ratzinger e analisa o pontificado de Bento XVI?
O cardeal Ratzinger, conheci ele mais tempo como cardeal do que como Papa. Como papa trabalhei com ele cinco anos e foi aquele que teve uma importância direta de decisão na minha vida, em 2010, nomeando-me bispo auxiliar de Curitiba. Portanto, o Papa Bento tem uma incidência profunda na minha existência, uma transformação profunda.
O Papa Bento, que eu vi como cardeal Joseph Ratzinger, tem uma importância grandíssima. Ele é um homem culto, um homem capaz, um homem reto, um homem simples. Um homem tímido, um homem grandioso e santo. Cardeal Ratzinger trabalhava como prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, durante o pontificado de João Paulo II, por isso sua grande importância. Trabalhou, também, na mediação no momento em que o papa João Paulo II falece. É o cardeal Ratzinger o homem que vai ser eleito para substituí-lo.
Papa Bento que vive atualmente ainda no Vaticano, pertinho do Papa Francisco, é um homem grandioso. E somente um homem grande pode ter uma tal atitude de dizer: “eu não estou no poder, mas estou no governo da Igreja e para a ação de Deus, eu me retiro do poder, para permanecer no governo. Deus e a humanidade precisam de um novo papa”. Por isso, o Papa Bento é um homem de uma estatura grandiosa na sua capacidade de reflexão, na sua capacidade teológica, mas também na sua capacidade de condução das coisas e de serviço. É um homem que entende, por sua grandiosidade, o grande serviço na Igreja. Passado esse período de transição entre o Papa João Paulo II e o Papa Francisco. Transição é um modo de dizer. São oito anos, por isso, não é uma transição. É uma transição que um papa com grandiosidade liga dois governos e ainda está vivo ainda para dizer que o serviço da Igreja é o mais importante, a ação de Deus é o mais importante.

Com o Papa Francisco vejo também uma outra relação, além da nomeação como bispo diocesano de Blumenau. Bergoglio tem a Virgem Desatadora dos Nós, já Dom Rafael tem a Mãe Peregrina de Schoenstatt. A intercessão mariana é uma das particularidades da fé cristã católica. Quais os benefícios dessa devoção?
Nossa Senhora é um ponto importante para Deus e para a humanidade. Maria, justamente, é escolhida como membra de toda a humanidade, a qual Deus pede o seu sim e ela diz sim. E, a partir dela, Deus se encarna e nós conhecemos a face do verdadeiro Deus. Nós que pensávamos que Deus era um Deus potente, um Deus autoritário, um Deus juiz percebemos em Maria, no seu sim, a acolhida de Deus e uma face de amor de Deus que precisa ser acolhido na vida. E Maria coloca-se, então, a serviço total diante da humanidade onde a criação e estruturação da criação definitiva do homem na sua misericórdia e no perdão, passa por Maria.
Maria também entra na minha existência. Conheço o movimento de Schoenstatt dentro do meu percurso de estudos de filosofia e teologia. Então, para mim, para a minha experiência decisiva, também, conhecer Maria e sua importância. E eu conheci Maria, Nossa Senhora, justamente através desse movimento, de modo experiencial. Desde pequeno já rezávamos o terço em casa, com mamãe e com papai, mas depois em uma formação, estrutura e organiza minha vida pedagógica, minha vida formativa. Schoenstatt entra na formação dos diversos aspectos que me dá hoje capacidade e liberdade para poder enxergar melhor o modo de servir não me confundindo com problemas e reações de cansaço e stress, mas me tornando livre para servir. Schoenstatt, portanto, e Nossa Senhora tem uma grande importância para a minha vida, minha existência.

Ainda sobre o Papa Francisco como o senhor vê os esforços do Santo Padre na reforma da Cúria. Essa é uma mudança necessária na Igreja?
Toda a pessoa humana e a sociedade está constantemente provocada pelo egoísmo. É a luta de toda pessoa humana. A problemática está dentro da pessoa humana. Nós somos feitos para o servir e o servir quer dizer que eu tenho que ter uma capacidade, justamente, de ação, de ter liberdade, estar livre. Livre de todo e qualquer condicionamento para servir à necessidade dos outros. Mas surge, imediatamente, em cada pessoa o egoísmo: “eu quero”. A criança nasce assim, ela é servida por todos e aos poucos que ela vai se tornando livre de dependência de todas as funções que os pais tem para com ela. Aos poucos vai amadurecendo e tronando-se livre e adulta, capaz de amar e de servir com liberdade.
O Vaticano, a Igreja, a Cúria também precisam constantemente trabalhar nesta dinâmica em que as pessoas não deixem florescer o seu aspecto egoístico, mas a sua capacidade sempre maior de servir. São pessoas concretas que trabalham numa estrutura e essa estrutura pode também ser instrumentalizada quando ela não é um serviço livre para as pessoas, mas quando as pessoas querem fazer seu caminho de uma trajetória de escalada e de realização pessoal e não de um serviço. Por isso, é uma contínua construção da capacidade de servir, uma capacidade de liberdade. E a capacidade de Deus e de evangelizar e dizer “eu sempre quero te amar, para que você se sinta amado e sirva”. Então, se uma pessoa é egoísta na sua administração econômica, ela vai levar esse problema para a sua administração e precisa constantemente ser corrigida.
No Evangelho, Jesus diz assim: quem quer ser o primeiro, seja o servo de todos. Então, a Cúria, que é mais importante, ela deve tornar-se servidora. Mas se os membros, se as pessoas que estão na Cúria vão fazendo um carreirismo e não um serviço, precisa ser constantemente corrigido. O aspecto administrativo, o aspecto, também, corrupto dos corações dos homens está impregnado em todas as áreas. Por isso, precisa de uma constante conversão, de uma constante reformulação para que sempre com maior possibilidade de ideal, a Cúria Romana se torna instrumento de serviço, de amor livre, capaz de, sem nenhum condicionamento, ver a necessidade. Por isso, o Papa está continuamente trabalhando, porque a Cúria é composta também por pessoas humanas, onde a conversão passa pelos corações e também pelas estruturas.

Tendo vivido mais de 16 anos em Roma e trabalhado na Congregação para os Bispos, qual a visão e a definição de Dom Rafael sobre a Cúria Romana?
A Cúria Romana tem uma missão de servir, de servir como visibilidade para a ação de Deus, para dinamizar as dioceses. Cada diocese no mundo tem sua autonomia e, ao mesmo tempo, tem a sua comunhão. Então, a Cúria Romana é aquela que deve dinamizar, ajudar, inspirar, mas é mútuo. É um organismo que recebe força da parte da Cúria Romana, mas é também a vida particular que faz voltar sua dinâmica. Então, é um diálogo, um diálogo de força, de dinamizações, de perspectivas, de unidade e de comunhão.
Então, a Cúria Romana tem importância, sim. Tem uma importância única, singular, uma importância de colocar-se a serviço de uma dinâmica para que o Evangelho seja comunicado a todos os povos, a todas as regiões e a Cúria Romana deve ajudar também que cada diocese, em cada país, na sua autonomia possa realizar sua missão. Por isso, ela tem um aspecto de autonomia e de comunhão. A Cúria Romana está ligada, então, na sua importância única na sua autonomia, portanto, tem seus dinamismos, seus organismos e sua organização, mas também ela é um aspecto de comunhão com todas as dioceses.


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