Continuação: Entrevista com Dom Rafael Biernaski, bispo de Blumenau

Um olhar sobre a reforma da Cúria e sua Diocese de Blumenau

Nesta segunda parte da entrevista Dom Rafael Biernaski fala de maneira direta e específica da reforma da Cúria Romana, de seu pastoreio diante de sua diocese e, também, de Dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito de Blumenau.

Esta entrevista é uma continuação independente de Um olhar sobre o Vaticano, a Cúria Romana e os Papas João Paulo II, Bento XVI e Francisco com Dom Rafael. O conteúdo também faz parte da série jornalística Olhar Santa Catarina, com os bispos titulares da 10 dioceses catarinenses. Leia também a entrevista com Dom Wilson Tadeu Jönck, arcebispo de Florianópolis.

O ser humano é um ser social, um ser político. Viver em sociedade é exercer a política. Uns dizem que política é encontrar soluções para interesses conflitantes, outros que é exercer o poder em favor do bem comum, enfim. E a Igreja por atuar no mundo também tem sua política. Não atoa o Vaticano tem um dos corpos diplomáticos mais bem formados do mundo. O senhor mesmo falou da influência política de João Paulo II na geopolítica. Gostaria que o senhor definisse que tipo de política nós estamos falando quando dizermos da política na Igreja?
A política é importante, fundamental. Quando nós somos amados por Deus e nós temos uma consistência concreta, biológica, material e nós vivemos em uma sociedade, nós temos uma dependência e interdependência. O bem comum, o bem comum das pessoas que se realiza na sociedade e por isso o modo político é para que se realize o necessário do serviço a todos os direitos e deveres de cada cidadão. E por isso a Igreja não pode estar fora porque ela é materializada, participa da sociedade, ela participa da sociedade, ela é material, ela é biológica. A pessoa humana espiritualizada tem seu aspecto decisivo no relacionamento humano. Por isso, a política é a resposta, a ajuda para que as pessoas realizem seus direitos e deveres. Qual é o direito que eu tenho? Eu tenho direito a ser amado, eu tenho direito a ter saúde, eu tenho direito a ter o alimento, eu tenho direito de ser respeitado, por isso eu tenho um dever. O dever de amar, um dever de ajudar na saúde, eu tenho um deve de respeitar as pessoas.
A política, a Doutrina Social da Igreja, é fazer realizar esse aspecto em que toda espiritualidade, todo o amor de Deus venha a realizar a pessoa em modo pleno. Não existe dicotomia entre vida social e vida religiosa ou vida espiritual. A pessoa humana tem uma integridade e uma totalidade. A vida espiritual e a vida social têm uma dependência, uma interdependência e uma realização. Por isso, a política é todas as ações que vão realizar o bem comum da sociedade e do indivíduo. Não existe choque entre o bem comum pessoal e comunitário, eu só me realizo no comunitário se eu posso nascer de uma família, a minha vida é doada, os meus alimentos são os outros que me dão, o meu cuidado e todas as informações são dadas pelos outros. Sou eu que contribuo. A sociedade precisa me dar autonomia e eu também na minha autonomia não posso ter direitos egoísticos, mas justamente entrar em diálogo. Por isso, a política da Doutrina Social da Igreja que vem dar essa capacidade que a pessoa humana tenha uma integralidade em todos os aspectos.

Muito se fala na política exercida dentro da Igreja e na Cúria. Eu gostaria que o senhor definisse qual política se exerce na Cúria Romana?
Então, ali a política tem que ser entendida como um serviço. Toda mediação de um serviço, então nós podemos chamar de modos concretos para realizar necessidades nesse aspecto de conduzir e de servir. Na política temos as normas, as regras do senso comum para poder realizar aspectos de serviços fundamentais à Igreja, à sociedade, à humanidade. Então, quando estamos em sociedade precisamos, de regras de normas e, por isso, a política será uma política de decisão, de caminhos diplomáticos ou modos de tratar ações onde tem por base o serviço do bem comum.

Mesmo de longe, conhecendo as estruturas do Vaticano. Na visão pessoal de Dom Rafael para onde essa reforma deve se encaminhar?
Eu já estou distante de Roma no sentido físico há quase 9 anos. Então, o que eu vejo como a maior problemática é a perspectiva de pessoas que estariam a serviço do Vaticano que pode ser nos mais diversos graus e funções, quando não estão realizadas e estão dentro de uma busca de carreira isso impede a pessoa de realizar um trabalho livre e transparente. Eu tenho uma experiência positiva do Vaticano, eu tenho uma experiência que pessoas realmente com a capacidade de presença, de serviço, de dedicação imensa. Então, existe um grupo grande de pessoas já realizadas como serviçais. Eu fico admirando o próprio Papa e vários cardeais, vários oficiais que realizam um trabalho constante, diário, profundo e imenso de uma profunda dedicação e de um profundo resultado realmente eficiente e eficaz. E dentro deste projeto, dentro deste serviço real, leal, verdadeiro, transparente existe esta mistura de pessoas que ainda estão buscando seu carreirismo, seu reconhecimento neste aspecto. Então, este é um contínuo trabalho que o Papa Francisco está realizando e que todos nós precisamos, dentro de nós, em todas as estruturas da nossa sociedade, seja do Vaticano ou onde estivermos.

O senhor é o terceiro bispo de Blumenau. A diocese teve como seu primeiro bispo Dom Angélico Bernardino. O senhor tem contato com ele? Como está sua saúde?
Sim, nós temos um contato contínuo. É um bispo emérito. Então, ele continua tendo um vínculo com a diocese, um vínculo de cuidado, de dependência. A diocese vai assistindo em todas as suas necessidades de vida. Então, constantemente estamos em comunhão, em comunicação telefônica e pessoal.

Dom Angélico é um homem de opiniões fortes. Envolveu-se em polêmicas por sua estreita relação com o ex-presidente Lula. O senhor acha que os bispos e a CNBB devem exercer sua influência política em favor do Brasil e de políticas sociais justas?
Quando nós temos um cargo de responsabilidade de condução, nós temos também que ver todas as consequências de nossos envolvimentos. Dom Angélico também, cada um pode ter seus envolvimentos pessoais. Ele não atuou como representante de uma diocese, ele atuou em decisão pessoal, então, por seus conhecimentos históricos e por isso também é respeitado nesse ponto.

Blumenau é a diocese mais nova de Santa Catarina, foi criada em 2000. Hoje podemos dizer que Blumenau é uma diocese independente?
Ela tem já uma independência. Uma autonomia e uma continuidade, como nós. Nós temos, então, uma continuidade. Quando nossos pais nos geraram, o nosso biológico, o nosso condicionamento cultural. Nós temos então um condicionamento histórico que tivemos. E, ao mesmo tempo, toda diocese e pessoa humana é autônoma, ela é viva. A vida de amor, a vida de relacionamento é viva, não tem uma imagem fixa. Então, nesse sentido da dinâmica eu vejo Blumenau como uma realidade autônoma. Então temos um caminho que é inspirado, também, por todas as forças evangelizadoras no Brasil e diretrizes, as forças evangelizadoras do regional, das dioceses vizinhas, mas a diocese caminha com a sua necessidade, a sua vida, o seu respiro, o seu amor, aquilo que faz com que as pessoas se realizem em si mesmas na relação com Deus e com as pessoas. E aqui vai se criando um trabalho pastoral e esse trabalho pastoral que identifica o novo. Então, temos uma caminhada, planejamentos, os bispos. Então, foram já três bispos, já deram encaminhamentos para os diversos organismos. E nesses quatros anos que estou aqui presente vejo, então, a dedicação profunda ao aspecto da iniciação a vida cristã. Nós temos um desafio grande hoje nos meios de comunicação. A comunicação, como fazer? Como evangelizar? Então a iniciação a vida cristã é um trabalho onde as pessoas vão sendo tocadas diretamente por um trabalho personalizado para a relação com Deus e relação com as pessoas.
O rosto da diocese de Blumenau e sua característica é que ela é evangelizada e evangelizadora. Percebe que Deus a ama e ela é também instrumento e mediadora para dizer sou feliz por ser amada por Deus e a consequência disso são ações. Ações de caridade, de comunhão e de vida. Então, a diocese respira com o Espírito de Deus, com o espírito do amor e uma autonomia e, ao mesmo tempo trazendo toda uma força cultural biológica de toda a sua história.

Falando sobre a necessidade de criação de dioceses. Blumenau é um dos menores territórios diocesanos. Ainda assim se fala na criação de uma outra diocese na região, no caso, Itajaí. O senhor vê como uma possibilidade interessante? Necessidade.
Então, isso nós vamos juntos percebendo e vendo. Nós precisamos perceber se há uma necessidade pastoral, a região tem uma necessidade que se crie uma estrutura para melhor ser servida ou ela já está sendo servida. Então, fica sempre aberto. O ponto crucial será a necessidade. A necessidade das pessoas a serem melhor atendidas, a necessidade das pessoas que moram naquela região geográfica, a necessidade de melhor serem pastoreadas. Pastoreadas quer dizer cuidadas, amadas. É o amor de Deus pastoral, de Pai que é mediado por uma estrutura, por uma diocese.
A diocese, então, vem como solução, digamos, como resposta. Precisaríamos levantar, então, questões concretas e verificar. Teoricamente dizer que será uma diocese ou não sei responder. Existe a necessidade que se levante as questões em que se diga que aqui necessitamos de uma nova diocese. O que eu sei, de conhecimento, foi veiculada esta ideia, mas não saberia dizer se ela terá êxito ou não.

Apesar de ser paranaense e ter vivido boa parte da sua vida em Roma, o senhor já está quase 4 anos em Blumenau. Qual a sua visão sobre a igreja particular de Blumenau? Seu povo, suas pastorais, seu clero…
Então, aqui também está ligado o Papa Francisco. Foi ele que me pediu e enviou para Blumenau. Qual é a ideia que tenho de Blumenau? Uma ideia de amor. A diocese de Blumenau são os destinatários do amor de Deus. Como é que eles são? Eu não tenho nenhuma imagem sobre eles, eu tenho a realidade do povo, dos padres, da situação. E para que? Para evangelizar. Então, vejo este objetivo, esta missão de modo muito bonito.
Agora vou descrevendo isso de modo concreto. Vejo, geograficamente Blumenau como uma região bonita, são 13 municípios muito variados bonitos em suas características em cada local, litoral, praias, mais no interno, os municípios… Depois, o povo. Temos um povo que tem tradições, culturas trazidas das diversas migrações e emigrações, também. Vejo também um povo organizado, um povo feliz, um povo que tem desafios. Depois eu vejo, também, na diocese de Blumenau, um caminhar histórico, antigo, longo dos diversos bispos que tiveram influência por aí. São três dioceses que tiveram influência sobre as regiões da atual diocese de Blumenau, criada no ano de 2000. Influência da diocese de Rio do Sul, influência da Arquidiocese de Florianópolis e influência da diocese de Joinville. Esses grandes bispos que foram formando as pessoas. Depois, temos padres importantes. Os franciscanos têm uma importância grandíssima, são os missionários franciscanos que trouxeram uma tradição de fé, uma tradição de cultura e de ensinamentos. Então, quando chego a Blumenau eu vejo a riqueza que tem e o desafio. Qual é o desafio? De continuar a dizer aquilo que Deus fez: eu tenho um amor incondicional para cada um e também que cada pessoa da diocese de Blumenau sinta-se amada por Deus e diga “este é meu destino: ser feliz e passar para a existência D’Ele”. Então, Blumenau é uma diocese importante, bonita, tem mais ou menos 750 mil habitantes, 13 municípios, 41 paróquias, várias religiosas e religiosos.


| INSTAGRAM| FACEBOOK| TWITTER |

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s