E quando o papa escreve a um ex-presidente preso?

O Papa Francisco escreveu uma carta em resposta a uma mensagem enviada pelo ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva. O texto do Santo Padre foi divulgado pelo Instituto Lula em 29 de maio. Por estar preso e angariar um grande número de admiradores, mas também de odiadores, a carta foi motivo de polêmicas. Mas o que há por detrás disso? O que de fato importa nessa história? O Olhar Vaticano analisou a correspondência papal.

A carta tem cinco parágrafos e cada um revela um aspecto do texto. Então dividimos esta análise em cinco pontos.

Segundo o próprio Papa, a carta de Lula foi escrita em 29 de março e respondida pelo Santo Padre em 5 de maio. Ou seja, ao considerar a distância e a importância do destinatário, a troca de mensagens foi veloz. Então, é possível que a carta do ex-presidente chegou às mãos do maior líder católico do mundo através de um emissário importante, algum bispo ou cardeal, talvez. Outro ponto interessante é o destaque para a “defesa dos pobres” e o “contexto sócio-político brasileiro”. Bergoglio é um grande defensor dos pobres e marginalizados e critica, em todo o mundo, políticas de retiradas de direitos e benefícios aos mais necessitados. Não se trata de Brasil, apenas, muito menos de política. É a Doutrina Social da Igreja que favorece os pequenos.

No segundo parágrafo, o Papa Francisco relembra sua mensagem de Ano Novo e reconhece Lula como estadista, alguém que exerceu ou exerce autoridade, independente de sua condição atual. O Santo Padre define política como uma forma de caridade “no respeito fundamental pela vida, a liberdade e a dignidade das pessoas”. Dessa forma, o Pontífice lembra o papel de responsabilidade adquirido pelo petista e mantido por meio de sua liderança, apesar das acusações e condenações.

O terceiro parágrafo parece uma orientação e conforto espiritual, mas contêm uma forte mensagem ao ex-presidente encarcerado: “o bem vencerá o mal, a verdade vencerá a mentira e a Salvação vencerá a condenação”. Lembra o slogan da primeira vitória de Lula para a presidência, em 2002: “a esperança venceu o medo”. Apesar do forte tom de superação, a mensagem não faz alusão direta a qualquer momento de injustiça sofrida por parte do brasileiro. Inclusive, quando o Papa fala sobre a Salvação, com letra maiúscula, ou seja a recompensa espiritual e eterna do céu.

Depois, o Papa Francisco lembra os momentos de tristeza com a morte de familiares: esposa, irmão e neto. O Santo Padre deixa uma mensagem de confiança em Deus.

Ao final da carta Francisco garante a sua oração pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pede, como é de costume, que reze por ele. A carta é um posicionamento de compaixão para com o brasileiro, mas não é de grande posicionamento e revelação. É costume do atual Papa ser direto nas palavras, tanto nos escritos quanto nos discursos, e, dessa forma, pode-se considerar que o Pontífice preferiu calar sobre a situação de cárcere e de julgamentos de Lula. Outro aspecto interessante é que Francisco tem forte relação com marginalizados, pobres, doentes, presidiários. O Papa prefere estar ao lado de quem está em situações complicadas do que com autoridades.

A troca de mensagens chama atenção por si mesma, mas o conteúdo não é surpreendente para quem lê com frequência as cartas enviadas pelos Papas, não só o atual. O próprio Francisco e o Vaticano também têm consciência da repercussão e da interpretação como ato político por muitos. Não há ingenuidade em nenhum dos gestos: na carta de Lula, na resposta de Francisco e nas repercussões favoráveis e desfavoráveis.


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Autor: Thiago Caminada

Jornalista, Mestre em Jornalismo (UFSC). Coordenador do "Olhar Vaticano". Assessor de comunicação, servidor público de carreira.

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