Na foto Dom Guilherme está sentado à mesa com os braços cruzados sobre ela. Ele olha em diagonal para a frente. Atrás dele, na parede, estão os quadros de seus antecessores.

Entrevista com Dom Guilherme Werlang, bispo de Lages

Um olhar em defesa da CNBB e sobre a Diocese de Lages

Dom Guilherme Antônio Werlang é o bispo mais recente em Santa Catarina, há pouco mais de um ano em Lages. Viveu grande parte de seu ministério sacerdotal e episcopal no Rio Grande do Sul e Goiás. O catarinense de São Carlos exerceu cargos de grande importância na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) como a presidência da Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz. Em entrevista exclusiva para o Olhar Vaticano, Dom Guilherme fala de sua diocese, da possibilidade de criar uma nova arquidiocese no estado e, em especial, do Sínodo Pan-Amazônico, rebate todas as críticas lançadas à CNBB. Concedida na Cúria Diocesana de Lages, a entrevista aconteceu em 23 de maio de 2019, dia dos primeiros protestos nacionais contra os cortes de verbas no Ministério da Educação do governo Bolsonaro – um dos críticos citados pelo bispo.

Na próxima semana, o Olhar Vaticano publica a segunda parte da entrevista com o bispo de Lages sobre as urgentes reformas na Cúria Romana, a opção evangélica pelos pobres e sobre os Papas João Paulo II, Bento XVI e Francisco.

O senhor acaba de voltar da Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), gostaria de falar um pouco sobre a conferência. Em fevereiro, a Agência Estado informou que o Palácio do Planalto considera a CNBB uma possível aliada do Partido dos Trabalhadores e um opositor ao Governo Bolsonaro. Como o senhor vê essa avaliação por parte do governo? E a postura da conferência nacional?
Se eu quisesse ser mais brando eu diria, assim, que foi um equívoco da parte da diplomacia e dos ministros, do Palácio do Planalto. Mas como lá não existe nada de ingênuo, eu digo que é maldade do Palácio do Planalto, comprometido até a raiz dos cabelos com o capital internacional, comprometido em buscar mais dinheiro para os banqueiros e grandes empresários internacionais e nacionais. E como a CNBB tem uma opção clara, evangélica, não socialista, nem comunista, mas evangélica pelos pobres evidentemente que é água e óleo. Tem quem usa outras palavras mais bonitas, mas eu sou direto. Essa questão, o que eles pensam de nós ou deixam de pensar de nós, não vai fazer mudança nenhuma. Nosso compromisso é com o evangelho. Nós somos da Igreja Católica, nós não somos nomeados como são nomeados os ministros, por influência política. Nós, a CNBB, nunca teve, nem terá partido político. É verdade que alguns dos fundadores do PT faziam parte das CEBs [Comunidades Eclesiais de Base], alguns fundadores do PT faziam parte da Pastoral Universitária, da Pastoral Operária e muito fundadores do PT, dos aliados e filiados do PT são católicos praticantes, como o são de outros partidos. Só que, por isso, como muitos deles o próprio PT e o sindicalismo surgiram dentro dessa realidade, da Teologia da Libertação, de dar voz ao povo. Na ditadura militar, na opressão militar a Igreja abriu, antes ainda surgiu o PT, mas abriu as portas das catedrais em Santo André, de São Paulo para que estes operários pudessem fugir, para não serem presos. Então, com isso criou esta imagem, mas a CNBB como organização, como Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB não ter partido político.
A CNBB vai manter a mesma verdade independente de quem estiver no governo. Assim foi no governo militar, assim foi antes dos governos militares, assim foi com todos os presidentes pós militares. Naqueles programas de políticas públicas que são justas a CNBB apoia, não tem nenhum medo de apoiar. Mas em tudo aquilo que fere a dignidade humana, o meio ambiente, a vida nós vamos ser contra. Nós fomos contra projetos de aborto dentro dos governos petistas, nós seremos contra se aparecer de novo. Nós fomos contra a transposição do Rio São Francisco no governo do PT, nós fomos contra muitos pontos dos marcos regulatórios, no meio ambiente. Então, é invenção de uma ala hiper neoconservadora, reacionária que implanta isso. Não corresponde à verdade.
As nossas eleições internas da CNBB são feitas para que a CNBB possa continuar servindo o povo brasileiro, não só à Igreja Católica. É um serviço ao Brasil, ao povo brasileiro, especialmente aos mais indefesos, independente de quem estiver no governo. Imagina se nós fossemos trocar as verdades da Igreja Católica a partir de cada governante. Aí nós deixamos de ser Igreja. Imagina se em cada lugar do mundo fosse assim. Nós partimos da palavra de Deus, quando eu digo palavra de Deus eu quero pegar a Bíblia toda, nós partimos também especificamente do evangelho para frisar mais a questão da centralidade de Jesus Cristo. Nós partimos e nos fundamentamos na Tradição da Igreja, a tradição é chamada dos primeiros três ou quatro séculos da Igreja, os chamados Santos Padres. Nós partirmos da Doutrina Social da Igreja, nós partimos do Magistério da Igreja, de dois mil anos. É a partir de lá que nós continuamos o nosso serviço de evangelização, de trabalho. Jamais nós vamos ceder a pressões políticas e ideológicas para direita ou para esquerda. Nós sermos classificados para direita ou para esquerda é uma classificação externa que alguém faz de nós, mas não temos dentro de nós. E quem conviver dentro das Assembleias Gerais, daquilo que a imprensa nacional diz do tensionamento entre progressistas e conservadores, direita e esquerda não existe lá dentro. Nós somos amigos, nós somos irmãos. Isso lá não existe isso é uma coisa externa que é plantada para poder dividir ou para poder puxar para o seu lado de interesse esses ou aqueles bispos. Porque tem bispos que veem diferentes. Nós somos diferentes. Veja como nós analisamos os Papas.
Eu sou filho de pequenos agricultores do Oeste Catarinense, eu trabalhei na roça, antes de entrar para o seminário, dentro do seminário e depois de padre, como reitor de seminário eu administrei os seminários que nós vivíamos do trabalho de nossas mãos. Então, logicamente que isso influencia o meu modo de ser Igreja. Nós temos bispos que nasceram nas grandes metrópoles, então eles vão olhar tudo a partir dessa sua realidade. Mas ninguém de nós bispos é contra a opção evangélica em favor dos pobres, ninguém nega o evangelho, nós somos fiéis a Jesus Cristo.

Esta entrevista faz parte da série Olhar Santa Catarina com os bispos das dioceses do estado.
Leia a entrevista do Dom Wilson Jönck, arcebispo de Florianópolis.
Leia também a entrevista com Dom Rafael Biernaski, bispo de Blumenau.

O senhor acredita que em tempos de crise e ausência do Estado a Igreja no Brasil pode ser fortalecer? E que o descrédito dos movimentos ligados à doutrina social da Igreja em algumas parcelas da sociedade se dá pela atuação social do Estado nos últimos anos?
A Igreja deve se fazer presente sempre. Mesmo que todas as políticas públicas estivessem sendo bem realizadas, talvez a demanda não seria tão grande. Mas enquanto houver um pobre, enquanto é um excluído, enquanto houver um doente não atendido, enquanto houver um discriminado, seja por raça, por crença, por gênero, seja a razão que for, enquanto tiver um ser humano na sua dignidade ferida a caridade não pode parar. Então, as pastorais sociais que a Igreja desenvolve vão permanecer sempre e elas devem acompanhar o movimento social. Quanto maior a crise, mais forte deve ser o nosso testemunho de presença. Mas jamais ausência.

Acredita-se que um dos motivos do governo brasileiro considerar a CNBB uma opositora é a preparação para o Sínodo Pan-Amazônico marcado para outubro no Vaticano. Como o senhor classifica essa avaliação?
Primeiro é inconcebível que um governo, um presidente eleito com apoio das forças militares, portanto da Inteligência Nacional, tenha essa preocupação. Ou eles não conhecem o que significa ser Igreja ou eles foram super mal informados. Primeiro, para eles saberem que a Amazônia geograficamente não é só o Brasil, mas são oito países. Outra questão, o sínodo é uma questão interna da Igreja mundial, quer dizer que não é a igreja do Brasil, não são as dioceses da Amazônia que estão fazendo isso. É uma convocação do Papa Francisco. Então, é inconcebível pensar que generais do mais alto escalão, com certeza apoiados por gente que forneceu informações dos serviços de inteligência nacional que eles não soubessem disto.
Alguém que é eleito por Fake News, por falsas notícias, por WhatsApp, por redes sociais e que fugiu de todos os debates, porque lá ele poderia ser questionado sobre todas as abobrinhas. Perdão, não sou contra o governo, sou contra as idiotices que se fala. São idiotices. Eu posso não entender de muitas coisas e eu não entendo de muitas coisas. Mas quando não entendo, eu não vou abrir a boca para falar sobre isso. Sobre a minha ignorância, eu serei inteligente se eu calar. Mas eu espalhar a minha ignorância aos quatro ventos do planeta é falta de senso, de desconfiômetro.
O governo não vai influenciar sobre isso [Sínodo], porque no Sínodo nós tratamos de questões internas de Igreja, de evangelização. Agora a evangelização não é feita para anjos. A evangelização não é feita para espíritos que estejam na mentalidade de alguns, perdidos ou voando por aí. Isso não é nada de cristianismo. Jesus disse e está no Evangelho de São João, na multiplicação dos pães, quando os apóstolos quiseram mandar o povo embora com fome Jesus disse: dai-lhes vós mesmos de comer. Então, evangelização significa olhar a realidade nua e crua e dura dos povos amazônicos. Nesse sentido vão entrar questões do meio ambiente, dos rios, da exploração da Amazônia, do direito dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos. Mas a partir da evangelização, porque são seres humanos. Destruir a Amazônia é destruir os seres humanos. E desrespeitar o direito dos seres humanos viverem é destruir a Amazônia. Então, eles não entendem de evangelização, eles entendem de armas e de matar. Eles entendem de muitas outras coisas, mas muitos deles são pessoas íntegras, inteligente, mas quando tem no comando… como é que nós vamos fazer. Mesmo que eles queiram implantar lá dentro alguém para dizer o que o Papa Francisco tem que fazer e não tem que fazer. Quem coordena o sínodo é o Papa Francisco como em todos os outros Sínodos. Então, quem vai coordenar é o Papa Francisco. Agora imagina se todos os governos do mundo quisessem meter o nariz. Como já aconteceu na história da Igreja, quando eram os Rei, os imperadores que nomeavam bispos e aí foi um fiasco. Então, não vão ser os poderes civis, nem os poderes econômicos, nem as forças militares das Nações que vão dizer o que nós devemos olhar ou não olhar sobre a evangelização e a defesa dos povos.

Gostaria de falar um pouco sobre a distribuição de territórios diocesanos e a existência de apenas uma Arquidiocese em Santa Catarina. Nossos vizinhos Paraná e Rio Grande do Sul têm 4 arquidioceses. Por que Santa Catarina tem apenas uma arquidiocese com mais 9 dioceses? Além disso Lages é a maior diocese em território e fica na divisa entre o oeste e o litoral. Não seria uma necessidade a criação da uma arquidiocese de Lages?
Eu acho que são questões internas da igreja da Igreja, e quando falo de Igreja não falo dos bispos, a Igreja é o povo de Deus. Eu acho que isso são assuntos que não estão fechados, são possíveis. E se o povo Catarinense, a Igreja Católica que está em Santa Catarina, as 10 dioceses sentirem essa necessidade com certeza vão levantar essa questão e vão debater sobre isso. E aí, se for o caso, de unanimidade, nesses casos para a criação de novas províncias eclesiásticas deve ter concordância de todos os bispos. No nosso caso seria todos os bispos de Santa Catarina. Se depois de ouvidas as bases, todas as dioceses e se sentir uma necessidade pastoral de evangelização, então se faz um pedido a nunciatura. A nunciatura vai abrir um processo e encaminhar. Se for aceito cria-se, se não, não. Esse é o processo normal na Igreja e pode um dia acontecer em Santa Catarina, ou não. Depende do que nós decidirmos. Criar novas províncias eclesiásticas não deve ser, porque os outros estados vizinhos têm. Deve ser a partir de necessidades pastorais e de evangelização se existirem. Então, eu estou apenas um ano aqui, então, eu acho que tem outros bispos que poderão responder isso melhor do que eu. Não quero fugir da pergunta, mas se diz assim: que quando se faz em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro têm muitas províncias eclesiásticas, porque a densidade demográfica é muito grande, a demanda de evangelização é muito grande, os deslocamentos se tornam muito grandes, as diferenças culturais nos estados são extremamente distintas. Se os bispos de Santa Catarina, junto com o conselho de pastoral de Santa Catarina, que tem representantes de todas as de todas as dioceses, acharem que este é um assunto de pauta, que deva ser refletido, com certeza ou regional ou o arcebispo poderá levar isto para iniciar um debate. Se não vier, vamos continuar com uma arquidiocese normalmente. Eu vejo um pouco por aí.
Ser em Lages, poderia ser pela centralidade geográfica, mas aí se fosse poderia ser em Chapecó, poderia ser em Joinville. Existem várias demandas que, se isso viesse a acontecer, deveria ser fruto de um trabalho de pesquisa de análise: o que é melhor e o que facilita mais a evangelização. Eu não limito no juízo agora de vai criar ou não vai criar, tem que criar ou não tem que criar, porque eu estou apenas um ano aqui e os outros bispos, além dos bispos, os padres, o clero, a vida religiosa consagrada e o laicato de Santa Catarina que é muito importante, muito forte devem ser ouvidos sobre essa necessidade ou não. Se fosse criado não deveria ser criado porque os outros têm.

Falando na igreja particular de Lages. Mesmo há pouco tempo aqui na diocese como o senhor a avalia? Como é sua visão de pastor do povo, das pastorais, padres, enfim de toda a diocese?
É muito dinâmica. Tem uma grande tradição, já de 90 anos de caminhada. Em muitas questões sempre foi um referencial. Teve bispos muito bons à frente da diocese. Um laicato muito bem formado, um clero muito bem formado. Então, eu vejo a Igreja de Lages muito viva, muito atuante e trabalhando sempre com opções muito claras dentro daquilo que é a Igreja católica, muito fiel à Igreja Católica. E eu tenho essa a missão de trabalho, rezando, dinamizando, dentro dos desafios que são novos e que nós temos que responder em cada momento às novas realidades.

Na foto Dom Guilherme gesticula durante a entrevista. Ao lado, está o jornalista Thiago Caminada com os braços sobre a mesa.

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