Continuação: Entrevista com Dom Guilherme Werlang, bispo de Lages

Um olhar sobre sobre os pontificados de João Paulo, Bento e Francisco e a Reforma na Igreja

Os Santos Padres e a reforma da Cúria Romana e da Igreja são os assuntos da segunda parte da entrevista com dom Guilherme Antônio Werlang. Neste trecho, o bispo de Lages apresenta a continuação do Magistério da Igreja e dos preceitos do Concílio Vaticano II através dos pontificados de São João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Dom Guilherme também fala da necessidade e importância da reforma da Cúria, de sua continuidade e da formação dos sacerdotes.

Esta entrevista é uma continuação independente de Um olhar em defesa da CNBB e sobre a Diocese de Lages com Dom Guilherme. O conteúdo também faz parte da série jornalística Olhar Santa Catarina, com os bispos titulares da 10 dioceses catarinenses. Leia também as entrevistas com Dom Wilson Jönck e Dom Rafael Biernaski.

Em 1999, na sua nomeação para bispo, o papa era São João Paulo II. Como o senhor observa a pessoa de Karol Wojtyla e seu pontificado em sua importância para toda a Igreja?
O Papa João Paulo II ele primeiro foi importante por ter vindo de um país extremamente católico que é a Polônia. Mas da antiga União Soviética com a forte influência do socialismo e do comunismo com os limites das liberdades, a opressão, a exploração. Então, ele vem da pobreza, ele vem de uma família operária. Ele vem de experiências na juventude de envolvimento nas lutas sociais pela liberdade. Então, ele teve um grande papel neste sentido para a Igreja e para o mundo.
Ele foi muito importante para a queda do muro de Berlim. Ele abriu uma nova perspectiva, no sentido de intensidade, porque, de fato o agora também santo Papa Paulo VI iniciou essas viagens pelo mundo, logo dentro do clima do Concílio Vaticano II. O João Paulo II procurou seguir essa trilha. Depois nos anos 1990 preparando o grande jubileu do ano 2000.
Ele acenou bastante para alguns movimentos eclesiais legítimos para poder abrir mais a evangelização. Haviam esses movimentos e ele abriu a porta para eles. Mas por outro lado ele também enfraqueceu um pouco as pastorais. Embora, eu acho que no equilíbrio geral ele fez um grandíssimo pontificado e deixou na entrega total, até o fim.
Eu tive, de fato, a oportunidade de alguns encontros pessoais com ele. Eu estive na primeira vinda dele ao Brasil, em Porto Alegre, no Gigantinho, o Gigante da Beira Rio. Naquele encontro memorável, jamais alguém poderia imaginar um Papa visitando a nós aqui no sul do Brasil. Eu vejo ele um homem muito coerente. De fato, um santo e que lutou na defesa dos pobres, dos pequenos, que legitimou muitas das questões que a CNBB já vinha fazendo aqui no Brasil e o terceiro mundo vinha fazendo. A contribuição dele é, de fato, com todos os documentos produzidos é muito importante para que a Igreja pudesse ser o que ela é hoje.

Após São João Paulo II, é eleito como papa o alemão Ratzinger. Como o senhor observa o breve pontificado de Bento XVI? Gostaria de ressaltar também qual sua opinião sobre os aspectos litúrgicos, já que o senhor tem especialização nesta área.
Eu conheci o Bento XVI quando ele ainda era o Cardeal Ratzinger, o teólogo Ratzinger. Enquanto teólogo, eu acho ele um dos homens mais inteligentes, digamos assim, das últimas décadas do século XX. Um homem extremamente culto, dá prazer de ler as obras dele. Agora, pastoralmente ele nunca foi pastor, no sentido de pároco, padre de paróquia. Ele foi professor, um catedrático, e nós temos que olhar para ele a partir do que ele é, a sua origem. Mas ele também experimentou a pobreza. Ele experimentou o que é uma Guerra Mundial, ele teve enquanto jovem que se dobrar a isso.
Então, ainda enquanto teólogo e cardeal responsável da Congregação na Doutrina [da Fé], são algumas posições, às vezes mais para frente e outras mais conservadoras em relação à Teologia da Libertação. Em relação a questões doutrinais, mas era a função dele no Vaticano. Eu penso que algum momento ele poderia ter tido mais diálogo em relação à teologia latino-americana, a Teologia da Libertação. Mas, lá dentro, quem conhece o Vaticano, às vezes, você lê a partir do que os outros te informam.
Mas como Papa eu vejo ele dando uma grandíssima contribuição na questão teológica, na questão doutrinal. E ele percebeu os limites dele que o mundo não é uma universidade, o mundo não é uma academia. O mundo é a escola da vida e na escola da vida tem muitas coisas que têm que ser, às vezes, redimensionadas. Ele tentou fazer isso com muita honestidade. Eu conversei com ele pessoalmente. Uma vez ele tinha muito interesse de saber com detalhes tudo que acontecia. É próprio de quem é pesquisador, de quem é investigador da verdade. Então, eu vejo nele um homem muito sincero na busca da verdade. E na história da Igreja ele vai ficar marcado como alguém que contribuiu muito nesta busca e na afirmação da verdade, da Doutrina.
Na questão da liturgia, eu não faria muitos comentários sobre isso, porque logicamente ele faz uma leitura catedrática. Mas ao mesmo tempo a importância de que na liturgia criatividade não é invencionismo, não é. Não é só porque ele disse que não pode. Na liturgia, a missa nunca foi um teatro. Na missa, o padre não é um ator. Então, embora muitos o critiquem, mas é preciso que alguém diga a verdade, em relação a isso. Como o Papa Francisco tem a mesma linha. Ele é muito espontâneo, mas na celebração litúrgica é celebrar o ministério pascal de Jesus Cristo. Show é show. Não é porque eu gosto de algum cantor sertanejo, gaúcho, tradicionalista ou nordestino, o que for e não é por isso que eu vou pegar e cantar na liturgia. E ele soube fazer a diferença entre o que é um canto litúrgico, o que é um canto religioso e o que é um canto devocional e tenta colocar cada coisa no seu lugar. Logicamente que é a mesma verdade que o Papa, que o Concílio Vaticano II proclamou, do Papa Paulo VI implantou ao fazer o Concílio caminhar. É a mesma verdade que é dita por todos os nossos Papas que você aborda, mas cada um tem um jeito, a partir da sua cultura, a partir da sua realidade e a partir da sua visão de mundo. Mas, nesse sentido, eu acho que a contribuição dele também na questão litúrgica e doutrinal do Papa Bento XVI é muito importante para nós, mas nós temos que colocar ele dentro do contexto da onde ele vem. Como os outros também.

Chegamos ao papa Francisco. Como o senhor vê as contribuições do papa para a Igreja universal? Vemos traços de uma igreja latino-americana em seu pontificado?
Ele foi feliz na primeira colocação que ele fez, na primeira aparição pública. Na noite da sua eleição, quando ele, em outras palavras, diz assim: “foram procurar alguém do fim do mundo”. Esse fim significa da periferia do mundo para ser bispo de Roma. Ao dizer, invés de ser o Papa, ele diz o bispo de Roma. Isso é uma verdade teológica. O papa, antes de papa, é o bispo da diocese de Roma. Em outras palavras, eu fui transferido da diocese de Ipameri, Goiás, para a Diocese de Lages, em Santa Catarina. Os cardeais rezaram, invocaram o Espírito Santo, fizeram uma semana de estudos, de debates, de análises e, depois disso, transferiram o Arcebispo de Buenos Aires para Arquidiocese de Roma. Pela tradição da Igreja, o arcebispo da da Arquidiocese de Roma é o Papa que coordena, em nome de Jesus Cristo, assim como Pedro, ele preside a Igreja no mundo inteiro. Então, essa é a primeira grande questão que nós temos que sempre levar em consideração, como ele [Francisco] se viu. Como arcebispo da Arquidiocese de Buenos Aires sendo transferido como bispo para a Arquidiocese de Roma e, como arcebispo da Arquidiocese de Roma, ou Diocese de Roma se assim quisermos. Então, assume esse papel de ser o sinal da unidade da Igreja no mundo.
Então, com certeza ele traz todos as questões latino-americana e da periferia do mundo para o centro. Mais ou menos como Jesus diz assim: venha mais para o meio. Ele traz a periferia e coloca ela no centro, no meio, para olhar a Igreja a partir da periferia. Para que todos possam olhar para periferia, olhar para a injustiça social que se expressa na periferia, para olhar para as violências que recai sobre a periferia, para olhar as mortes por inanição, por fome, das fugas por causa da perseguição, por causa da violência que o centro faz sobre a periferia. A exploração laboral, a exploração das riquezas, da destruição que o centro do mundo do poder econômico faz sobre a periferia. O Papa Francisco, você não vai conseguir entender ele, sem entender Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida, onde ele foi um dos redatores, secretários redatores do documento de Aparecida. O Papa Francisco tem que ser visto a partir daí.
Como eu havia dito antes, nós temos de olhar o Papa João Paulo II a partir de um bloco da grande União Soviética, do comunismo, do socialismo. Nós temos que entender o Papa Bento XVI a partir de uma Alemanha nazista, onde foi a sua infância. Nós temos que olhar a partir disso e só assim podemos entender o grande legado e as mesmas verdades que a Igreja sempre proclamou, mas a partir desta realidade. Sem isso você não vai conseguir entender o Papa Francisco. E ele não inventa nada de novo, ele é fidelíssimo a Jesus Cristo, ele é fidelíssimo ao evangelho. Ele procura ser 100% fiel ao Concílio Ecumênico Vaticano II, fazendo ele acontecer e ser aceito até onde não tinha sido aceito, até então. Na verdade mesmo, em muitos lugares do mundo o Concílio é apenas um documento de prateleira, de biblioteca. E o Francisco tenta colocar o Concílio Vaticano II em prática.

Como o senhor vê essa iminente reforma?
A Cúria Romana Romana, o Papa Francisco começou a fazer a reforma desde o primeiro dia. Desde quando ele foi caminhando a pé, desde quando ele não trocou os seus sapatos surrados para colocar um sapatinho bonito. Desde lá ele começou a fazer a reforma da Cúria. Desde que ele começou quebrar os protocolos, desde que ele se inclinou e pediu que o povo rezasse por ele, pedisse as bençãos sobre ele. Eu vejo, desde lá, o início das reformas todas. E eu acho que um papado, um pontificado sozinho não vai conseguir fazer tamanhas as necessidades de reformas que existem, afinal são dois mil anos e muitas vezes já aconteceram as reformas. E ele está disposto a fazer com que a Igreja possa continuar sendo a enviada de Jesus Cristo para levar a Boa Notícia ao mundo. Elas são sumamente necessárias. Sempre que você mexe em algo extremamente estabelecido, quase que inflexível, que é uma lei da natureza. A dobradiça que uma criança consegue fazer com as perninhas, com a espinha dorsal e tudo mais, um homem de 40 anos não faz mais, de 50 faz menos. Então, esse enrijecimento é que de repente exista em alguns setores, que essas reformas têm que ser firmes, gradativas, mas progressivas. Fazendo isso, não tem como parar. Ele é ousado. Ele sabe de todas as críticas que ele recebe.
Eu tenho uma informação, vou contar o fato, mas não o informante. Um bispo brasileiro que esteve recentemente com o Papa Francisco e pousou na Casa Santa Marta. Caminharam da Basílica São Pedro, em uma caminhada de volta no Sínodo, até a Casa Santa Marta, o bispo e o Papa. Então, o bispo diz assim: o Francisco, porque ele gosta de ser chamado só de Francisco, e todas essas críticas e tudo mais? E ele: eu dou risada, eu não vou me estressar por isso, quando eu assumi, eu aceitei a transferência para Roma para assumir este Ministério de Pontificado, eu sabia que isso ia acontecer. É normal que aconteça e eu vou ter que ser firme, naquilo que é de fidelidade a Jesus Cristo. Então, as críticas vão continuar. Se ele não fizesse, teria a crítica do lado daqueles que achavam que tinha que fazer. Agora, ele fazendo aqueles que estavam instalados e imexíveis, perdão pelo neologismo, aqueles que ninguém poderia tocar, que se achavam intocáveis, ele está tocando. Aqueles que impedem a mudança, têm que ser trocados. Assim como acontece na sociedade civil, a mesma coisa que acontece em uma paróquia. Às vezes temos pessoas que travam. Todo mundo sente que precisa fazer a mudança, mas às vezes têm pessoas que tem o poder na mão, que não largam de jeito nenhum. Então você tem que fazer a mudança dessas pessoas e o Papa Francisco tem coragem de fazer isso. E por isso nós temos que agradecer a Deus.

O senhor foi durante anos reitor e formador nas diversas etapas de Formação dos Missionários da Sagrada Família. O senhor não acha necessária uma atualização no modelo de formação dos sacerdotes? O senhor acredita que os padres estão preparados para os desafios do mundo atual?
Esse é um trabalho contínuo. E nós estamos fazendo, a partir do próprio Vaticano II, a partir da CNBB. As congregações religiosas têm se reunido, eu tenho assessorado congregações religiosas masculinas e femininas. Esse é um dos temas mais centrais que nós estamos fazendo: atualizar a formação dentro da demanda do Século XXI, os novos desafios em todos os campos. As famílias estão fragilizadas, estão desestruturadas, Deus continua chamando as vocações, mas muitas vezes elas vêm muito feridas, muito machucadas por uma sociedade muito violenta, uma família desestruturada, separada, às vezes, com segunda ou terceira união. E tudo isso influencia a criança, o adolescente e o jovem. É nossa tarefa não rejeitá-los, mas saber trabalha-los e isso está sendo feito.
Então, de fato, esta é uma questão muito urgente, grave, mas que a Igreja e as congregações religiosas estão procurando enfrentar com muita seriedade. Inclusive buscando assessorias de profissionais para além da Igreja Católica: profissionais da educação, profissionais na área da Psicologia, da antropologia, das dimensões humanas e de grandes orientadores na espiritualidade e na mística. E nós temos que fazer a formação plena da pessoa nas cinco dimensões e não apenas na dimensão intelectual.


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