Na foto, Dom Frei Severino está sentado à mesa com as mãos postas.

Entrevista com Dom Frei Severino Clasen, bispo da Diocese de Caçador

Um olhar sobre os leigos na Igreja do Brasil

Dom Frei Severino Clasen é bispo de Caçador e presidente do Regional Sul 4 da Conferência Nacional do Bispos do Brasil, região que representa todo o estado de Santa Catarina. Sua entrevista foi concedida na quarta-feira, 14 de agosto, dia da semana em que o bispo atende na Paróquia Catedral São Francisco de Assis. A sala fica com a porta aberta, enquanto Dom Severino aguarda as pessoas sentado à mesa. Não há agendamento e nem preferências. Muito provável que neste dia eu e a repórter fotográfica Bruna Bertoldo fizemos duas jovens esperarem por um longo tempo na recepção por causa da duração da entrevista. Nesta, como em todas as outras da série Olhar Santa Catarina, o contato com o bispo durou mais de uma hora. Neste caso em específico, quase duas.

Entre os destaques desta entrevista está uma notícia em primeira mão. O Vaticano e o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida promoverão um Ano Internacional do Laicato. Ainda sem data prevista.

No primeiro trecho da entrevista, Dom Severino Clasen fala sobre sua atuação na Comissão Episcopal Pastoral para o Laicato da CNBB, o papel dos leigos na Igreja, o perfil dos leigos e leigas brasileiros e sobre o Papa Bento XVI. A segunda parte, sobre o Papa Francisco e a Conferência Nacional do Bispos do Brasil será na próxima semana.

O senhor foi o primeiro bispo escolhido por Bento XV…
Pois então, eu não queria ser bispo. Parece que bispo é muito longe do povo, não é meu estilo, meu estilo é muito popular, muito junto, de convivência. Aí o núncio Dom Lorenzo Baldisseri me chamou para ser bispo e fui lá e disse: “não, não vou, não vou”. E aí, ele me diz: “mas você é religioso e como fica o voto de obediência?”. Agora, quebrou. Tá bom então vai, porque tem que ser obediente. E aí quando eu disse sim e ele fala: então veja quem vai te ordenar. E eu indiquei alguns bispos que poderiam ser o ordenante e falei: pode ser o senhor também. Pois é, só me convidar e eu vou te dizer, você é o primeiro de Bento, respondeu ele. Aí, claro, ele aceitou ser o ordenante e foi bom, porque tive uma boa relação com ele. Eu trouxe ele para Santa Catarina, ele veio fazer a ordenação em Ituporanga e foi muito bom. Eu sempre tive uma relação muito boa com ele. Ele como Núncio Apostólico, hoje ele está como cardeal em Roma.

Como é a relação do senhor com Dom Lorenzo, O senhor ainda tem contato?
Hoje não, mas é evidente que se a gente se ver vai lembrar logo. Nós temos as reuniões dos bispos e ele cumprimenta a todos, assim, à distância. E a mim, não, ele chega e abraça. E aí os outros bispos perguntam por que essa sua intimidade com o núncio? Mas foi ele que me ordenou! Então, está explicado. Porque cria uma certa liga. Como por exemplo, o padre que eu ordeno. Cria uma relação paterna e filial. É muito comum entre nós.

Como o senhor vê o pontificado do Papa alemão?
Bento XVI é um homem doutrinário, da Doutrina. É típico dele, é um de homem da teologia, um homem da profundidade, um homem muito inteligente. Eu diria que foi o homem necessário para o tempo, mas ele percebeu também o peso de uma estrutura pesada que criou para a Igreja Católica. Ele sentiu o peso e a idade. Por isso, eu faço o meu julgamento aí, que ele deixou, entregou [por isso]. Isso mostra também o lado muito humano e amor à Igreja. Nesses tempos, nessas mudanças precisaria ter uma outra dimensão. Uma dimensão mais de pastoral e de cuidado. E foi aí que ele fez a renúncia.
Até quando veio a renúncia me perguntaram, como presidente de Comissão da CNBB: que tipo de papa o senhor gostaria de ter? Primeiro eu respondi que fosse um papa que não fosse europeu para ter um novo olhar de Igreja e também que fosse pastoralista. Aí me veio muito a ideia do Bom Samaritano. Um Papa Samaritano, um papa que acolhe o machucado. Não que o Bento não fez isso, mas o vigor da Doutrina muitas vezes impede. Então, você tá muito mais ligado à lei do que a misericórdia. E aí veio um argentino, mas também não esperava um argentino. Então, dentro da minha convicção, para aquele momento de mudança da sociedade, entre o neoliberalismo muito forte e uma sociedade desenfreada que a lei está sujeita ao poder econômico. Então, precisaria uma outra visão agora de alguém que acolhe. E com isso o Papa Francisco entrou como uma luva. É aquele que olha e não fica julgando mas chama atração a Jesus Cristo.

O senhor presidiu a Comissão Episcopal Pastoral para o Laicato da CNBB, como o senhor vê a evolução e construção do papel do leigo na Igreja?
Foram oito anos que eu estive nessa presidência e eu tenho uma alegria muito grande de poder dizer que eu deixei uma contribuição, também, na presidência para a Igreja no Brasil. E o marco é isso aqui: que é o Documento 105 [da CNBB – Cristãos leigos e leigas na Igreja e na Sociedade]. Esse documento nasceu em 2012, quando eu fiz uma convocação dos bispos referenciais do laicato no Brasil.
Aí começamos a fazer um trabalho com um grupo de leigos. Esses teólogos, esses doutores [em teologia] eu tinha como assessores. E aí pedimos: tragam-nos um documento, porque nós estamos celebrando os 50 anos do Concílio Vaticano II, o que o Concílio Vaticano fala sobre o laicato, sobre os leigos. Aí o João Décio [Passos] trouxe um texto, um trabalho bonito. Foi o primeiro passo para esse documento aqui. Um leigo escrevendo. E aí vamos garantir um assunto de Assembleia Nacional sobre o laicato e começamos a trabalhar. Em 2013, começamos a pleitear a elaboração de um documento para tema central da Assembleia. Eu me lembro que nós estávamos em uma reunião, em Brasília, e nós tínhamos que definir e eu tinha que convencer os bispos da presidência que nós pudéssemos, de fato, enfrentar e fazer um documento. Naquela ocasião, o papa iria lançar este aqui [Exortação Apostólica Alegria do Evangelho], foi no mesmo dia. E aí, eu já pedi para entrar na internet e me traga uma palavra que o Papa está falando sobre os leitores que eu já quero jogar para convencer os bispos que nós temos que ter um assunto geral sobre isso na Assembleia. Em 2016, nós aprovamos, mas pedindo um Ano Nacional do Laicato e foi aprovado.
Tanto é que 2018 foi o ano Nacional do Laicato. Eu acho o grande legado que nós deixamos, foi um legado de cristãos leigos e leigas mais engajados, mais comprometidos, mais envolvidos com a Igreja. Nós percebemos isso no Brasil todo. Tivemos as avaliações dos Regionais e foi muito interessante, ouvindo os depoimentos. O resultado, agora, o próprio de Dicastério [para os Leigos, a Família e a Vida] nos convocou, porque fizemos uma carta para o Papa Francisco pedindo uma mensagem para o Ano do Laicato. E, na carta, a gente pede: por que não fazer um Ano Internacional do Laicato? E quando o Papa ouviu a carta, ele pediu para os assessores lerem a carta para ele, e quando eu falo sobre o Ano Internacional do Laicato o Papa diz: espera aí, repita essa frase “O Ano Internacional do Laicato, temos que nos debruçar sobre isso”. E aí, agora vamos continuar a carta. E depois nos diz o padre Alexandre que está lá no Vaticano que ficamos quase uma hora conversando sobre isso. Foi aí que eles pediram também um Seminário Internacional sobre a Formação e as Novas Práticas do Laicato no Mundo com os cinco continentes do mundo. Inspirado no nosso trabalho e fomos lá. E foi uma coisa muito interessante, porque todos os continentes estavam de olho na nossa experiência do Ano Nacional do Laicato.
Dias atrás o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida mandou um questionário para respondermos, com algumas perguntas sobre como nós fizemos e o que nós sugerimos. A gente já percebeu que há um movimento para o Ano Internacional do Laicato. Então, além de nós acendermos a esperança dos cristãos leigos e leigas no Brasil, houve um eco para fora, para o mundo todo. Então, nós estamos agora vendo isso, após o Ano Nacional do Laicato e a gente percebe que o pessoal está lendo isso aqui e assumindo. Acho que isso é um grande legado que deixamos. E agora deixei a CNBB para agora assumir a presidência do Regional

A partir dessa questão dos leigos gostaria que o senhor comentasse sobre a Iniciação à Vida Cristã e como é que esse trabalho se encaixa nessa nova visão dos leigos na Igreja.
A partir do documento 100 [Comunidade de comunidades: uma nova paróquia] e, antes também, a Igreja vem pedindo uma nova dinâmica de formação, de catequese. E na CNBB de vez em quando se falava da Iniciação à Vida Cristã. E eu, lá junto com o conselho, eu fui também imaginando na minha diocese e eu tenho a sorte de termos um grupo de padres e de leigos muito afinados nessa área. Eles tinham trabalho juntamente com a Arquidiocese de Florianópolis.
E nós achávamos que nós tínhamos que ser mais ousados ainda. E aí nós tivemos alguns assessores e quando o pessoal estava reunido eu disse: eu quero que vocês produzam e não quero remendos, porque remendo nunca você tem o original. E aí disseram: o quê o senhor quer dizer com não remendos? Eu quero originalidade. Então me perguntaram: e com isso também o senhor concorda com a nova ordem dos sacramentos? Daí eu respondi: não a nova ordem, a ordem original. O original que é o novo. Mas o senhor sustenta? Estou pedindo. Aí o grupo se sentiu à vontade e está produzindo e ainda leva mais uns dois ou três anos para a gente fechar o ciclo. E o que tem de interessante nisso? Primeiro, a proposta. Os leigos, os catequistas se apaixonaram por esse estilo e isso convenceu também os padres a se apaixonarem pelo sistema. Agora nós percebemos que as famílias estão sentindo que esse é o caminho. Ainda outro dia, um empresário chegou a mim e disse: “Nossa! Parabéns por essa catequese que vocês inventaram aí. Agora eu e a minha mulher, nós temos que largar tudo e acompanhar nossa filha. Agora estamos aprendendo novamente o que é ser Igreja”.
Há uma adesão. Isso que é bonito. A gente vê como as famílias estão reagindo, no grupo e por completo. Claro, eu sempre insisto: vamos com calma, porque não quero um momento que é fogo de palha, depois cansa e volta tudo normal. É preciso ter persistência. Quando entre na mistagogia, significa que a espiritualidade é o que faz a transformação, faz o seguimento. Vocês que dão catequese já devem ter percebido que outros ensinam, falam e depois as pessoas não vem, né. Aqui a gente percebe quando vem. Nós fizemos aqui, também, a busca de grande de jovens, buscando sacramentos. Não é mais por tradição, agora vem por convicção. E faço entrevista com eles e eles dizem: “agora mudou minha vida, agora eu entendi o sentido da vida”, é bonito ver os jovenzinhos falando isso. “Agora não tem mais ninguém que me tira dessa igreja”. A gente tem que ser um pouco ousado e nós podemos perder alguns. E foi aí que alguém me falou um dia: é Dom, mas talvez nós vamos perder alguns. Não, nós não vamos perder aqueles que nós nunca tivemos. Nunca foram convictos, então não eram nossos. Então, vai purificar, essa purificação eu acho que ela é necessária na Igreja hoje.

Qual é o perfil do leigo católico no Brasil? E no estado de Santa Catarina? Há diferenças?
Aí você tem que falar de um Brasil imenso, um Brasil grande. Um Brasil em que eu está estive de presidente [na comissão episcopal para o Laicato], mas eu tinha mais quatro bispos da presidência que eram assessores para formar um grupo com mais os leigos assessores e os regionais, são 18 regionais no Brasil e cada regional tem cultura própria. Os leigos do Nordeste e Norte do Brasil são mais espontâneos, são mais diretos, são mais ligados às mudanças, às necessidades. Os leigos do Sul são mais tradicionais, mais conservadores. Isso a gente recebe nítido. Quem está muito conosco, percebe que é preciso abrir o leque, é preciso buscar novas fórmulas. Aí eles se encantam com o Nordeste. No Nordeste e no Norte, são leigos que quando nós estamos elaborando o Ano do Laicato, tentando pensar alguns folders, o pessoal do Ceará, o pessoal de Belém do Pará já tinha. Nos esperavam por outras coisas, eles são rápidos. Não é a pobreza que que é a fraqueza, mas eles têm uma vida eclesial muito autêntica, muito mais próxima.
Nós estamos muito, aqui no Sul, aqui em Santa Catarina, eu senti muita dificuldade. Eu, mesmo Catarinense, estava muitos anos fora de Santa Catarina, eu esperava, por ser um estado muito católico, um estado mais avançado, mas me surpreendeu como muito conservador, muito para trás. Qualquer coisa é lei e isso e aquilo. Eu tenho dificuldades e já estou no oitavo ano e é agora que eu estou percebendo. Então, estou agora na presidência do Regional e eu vou dar umas aceleradas nesse sentido de nós olharmos um pouco mais e a força está aqui na Evangelii Gaudium. Nós queremos a unidade com o Papa Francisco. E aqui que está abertura, aqui que está o segredo. Agora o pessoal do secretariado lá está vibrando, não é porque agora não tem que os outros não tinham esse cuidado também, mas eles não tinham uma caminhada forte que eu tive na presidência da CNBB, na comissão. Isso fez a gente abrir o olho e muito. Então, essa contribuição eu pude trazer aqui para o estado e eu sinto que nós estamos caminhando tranquilamente. Vamos ter agora, as diretrizes e já estão caminhando muito em cima disso. Eu tenho muita esperança de que nós podemos dar uns bons passos.
Eu acho que nós temos a porta aberta e temos vocês que ajudam a divulgar, porque eu acho que essa é a função. O que nós estamos insistindo para os leigos: a mídia comunicação, o mundo da comunicação. E a Igreja falha muito, não divulga o que tem. Se você não comunica, outros comunicam. Se vocês se calarem, outros falam o que vocês poderiam podem falar, vocês que estão na Igreja. Vão falar aqueles que não tem nada e vão falar a versão deles que não tem nada a ver.
O mundo da política que é muito complicado. Muito mais hoje, a gente até um pouco recuado, porque tudo é interpretado. Tem que ter muito cuidado. O mundo da universidade, das escolas. O pessoal pede pelo amor de Deus que venha um padre ou alguém da Igreja falar para nós e para os alunos. Aqui todas as escolas pedem e isso é bonito. O mundo das empresas. Pedem: alguém pode vir dar uma benção? Mesmo o patrão, às vezes, fala mal da Igreja, mas quando ele percebe que precisa da benção. Porque eu não entro no jogo do mercado e nem no jogo das ideologias. “É, mas vocês são da esquerda!” Não senhor! A Igreja tem dois mil anos. E daí eu pergunto, por que quando a gente faz essas convocações só vem o pessoal da esquerda? E não da direita? Isso é um problema da Igreja ou um problema de vocês? Então, não me chama a Igreja de esquerda, a Igreja é do evangelho e a bíblia manda a gente olhar o pobre, o machucado. Então, muito cuidado. Essa é a mentalidade que estamos passando para os leigos para conseguir organizar um conselho de leigos para eles fazerem esta reflexão também, para serem autênticos e não ser ideológico. “É, mas a ideologia é só de esquerda!” E a direita? Não é uma ideologia pior ainda? E, hoje, está mandando matar e dando arma? E daí?! Como que fica?! A gente tem que ser autêntico também.

Créditos: Bruna Bertoldo

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