Continuação: Entrevista com Dom Frei Severino Clasen, bispo da Diocese de Caçador

Um olhar em defesa da CNBB, das reformas de Francisco e da criação de novas dioceses

Neste segundo trecho da entrevista Dom Frei Severino Clasen defende a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e aponta como heréticos os grupos que não estão em comunhão com a Igreja. O bispo de Caçador também falou sobre a polêmica da acusação de ter feito campanha para o candidato Fernando Haddad (PT) em 2018. O Papa Francisco e a criação de mais duas dioceses e arquidioceses em Santa Catarina também estiveram em pauta.

Esta entrevista é uma continuação independente de Um olhar sobre os leigos na Igreja do Brasil com Dom Severino. O conteúdo também faz parte da série jornalística Olhar Santa Catarina, com os bispos titulares da 10 dioceses catarinenses. Leia também as entrevistas com Dom Wilson Jönck,  Dom Rafael Biernaski e Dom Guilherme.

Vamos conversar sobre o nosso atual pontífice Papa Francisco. Como o senhor vê esse movimento de reforma?
Uma necessidade, como a sociedade precisa de reformas. Há uma nova mentalidade, são novos tempos e o Papa Francisco passa aquilo que Jesus Cristo passou dois mil anos atrás. Era necessária uma reforma. A prática do Judaísmo estava estressada: legalista demais, pesada demais e não era para todo mundo. Todo mundo tinha que obedecer. E o Papa Francisco tem esse feeling, essa percepção da experiência dele em Buenos Aires de trabalhar nas periferias existenciais. A Igreja é, o que muitas vezes eu falo aqui também, a Igreja não é só a matriz, só a Catedral. Como nós somos Igreja nos nossos bairros? O que que nós somos nos nossos bairros? Inclusive alguns movimentos de oração eu coloco para eles: vocês são capazes de formar um grupo de oração lá no bairro? Então, abrir o espaço.
Eu sempre digo: não perder nada e nem ninguém, mas aumentar, difundir ir em novos ambientes. E o Papa Francisco capta isso. E ele percebe que para isso é preciso primeiro mudar a estrutura da Igreja que está muito pesada. Aí vêm as grandes reformas que ele faz: a reforma de pastoral, a reforma da Cúria, a reforma do administrativo e tudo isso é necessário. A reforma, não estou dizendo que isso aqui que não tem necessidade e que tem que jogar fora e começar com outro, não. É reformar aquilo que tem. Você não pode jogar fora aquilo que ainda tem vida. E aí entra a mentalidade que nós vivemos hoje, um período muito delicado. Se não pensa como eu, tenho que matar, tem muito disso hoje.
O Papa Francisco chama para a conversão, a mudança de vida, de atitude. Então, quando ele fala, por exemplo, também na questão dos sacramentos, dos homossexuais, ele não condena, mas ele tem que fazer a vontade de Deus. Se eles fazem o bem, quem sou eu para condenar? Então, tem que haver essa percepção. Ele não está legitimando um erro de uma pessoa. Ele está legitimando a pessoa como essência, porque ninguém consegue anular o sinal de Deus que tem dentro de nós. Se eu estou eliminando uma pessoa, estou eliminando Deus que está aqui entre nós. Agora tem que eliminar o erro, o pecado. O pecado não é Deus e eu tenho que eliminar o pecado. Então o Papa Francisco tem muito disso e por isso a gente está cada vez mais se ligado a ele e também para divulgar, porque nós estamos aprendendo também a tirar o pecado e elevar a graça da vida como o maior dom que Deus nos deu. Deus nunca se arrependeu de nos ter criado. Agora. nós que pulamos, saímos da rota, erramos. E o erro não é de Deus, é nosso. Então, por isso, o Papa Francisco sofre muito essa pressão e, claro, ele paga caro por isso.
A questão de como que a humanidade caminha, a questão das tendências, do gnosticismo, dos pelagianismos que são as heresias do passado e que hoje estão muito latente. E o Papa Francisco ataca isso de frente. Não basta só conhecer, eu preciso testemunhar aquilo que eu conheço de Jesus, se não isso é um agnosticismo. Muitos dizem: eu conheço e estou salvo. Não, senhor! Jesus também diz: os que dizem Senhor, Senhor, sempre fiz tudo; e, na verdade, não te conheço. E o pelagianismo, é a minha convicção. Então, eu estou querendo mandar em Deus, Deus tem que ser adequar à minha vontade. Então, isso é pelagianismo. É uma heresia. É a vontade de Deus que prevalece. É preciso aprender a entender qual é a vontade de Deus. Aí passa pela vida da comunidade, o serviço que nós temos e por aí. Então: eu não preciso mais do Papa Francisco, porque ele não me representa, não preciso da CNBB, ela não me representa. Isso é pelagianismo. E nós temos grupos fortes dentro da igreja que dizem isso e vão na comunhão. Eles tem ruptura, não deviam comungar, porque não estão em comunhão com a Igreja. Então, por isso, o Papa Francisco sofre muito, porque está enfrentando essas correntes do mundo todo. E está sendo muito hábil, porque vem as exortações, por exemplo, o ano da misericórdia, questão da família na Amoris Letítia. Quando ele cria esses momentos, agora, por exemplo com a questão da Amazônia. Por isso, têm grupos aí e mais fortes no Brasil querendo dizer que a vida está acima disso tudo.

O senhor como franciscano poderia fazer um paralelo entre Francisco de Assis e Francisco de Roma? O próprio papa revelou que a escolha foi por causa de Francisco de Assis.
Tem muita semelhança. Francisco de Assis é filho do Pedro Bernardone, grande comerciante e dono do capital. Era o comerciante mais influente na vila, na cidade de Assis, com uma cultura privilegiada, não que ele tenha a faculdade, mas ele se casa com a dona Pica, uma francesa que tem um pouco mais status e tanto que o Pedro comprava as mercadorias da França e vendia na loja dele, lá em Assis. Desse ambiente nasce Francisco. Francisco tinha a habilidade do pai e a santidade da mãe, porque ele era muito hábil para quando fazia negócio, ninguém o batia, ele sabia negociar. Ao mesmo tempo ele colocava o pai para quebrar, porque qualquer pobre que vinha ele ia lá e dava de graça. Então, nem sempre tinha muitos lucros. E aí ele entra nesse apaixonamento e segmento do evangelho.
Até dias atrás nós tivemos a festa de São Domingos. Domingos de Gusmão queria que Francisco, na época que Francisco estava começando a criar a ordem, que Francisco seguisse ele, porque seria um grande aliado para fortalecer a Ordem dos Dominicanos. E aí Francisco de Assis diz: nada e semelhante, nada como vocês, nada como os Beneditinos, nada como ninguém, somente o evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, é isso que vou viver; eu não quero copiar nada, eu quero aquilo que já existe, viver o evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quando ele se aprofundou no evangelho, ele largou tudo.
O que fez Mario Bergoglio? Jesuíta, de posse de um conhecimento, intelectualidade que é próprio dos jesuítas, mas vive na periferia e se torna um homem profundamente religioso, com sensibilidade de espiritualidade apurada. Até uns dia para Dom Cláudio Humes perguntando para ele, quando nós estávamos na reunião dos bispos, em um grupo menor, perguntei para o Cláudio: Como que foi a votação lá? Aí Dom Cláudio me diz: só não peça em quem que eu votei. Mas isso não precisava nem perguntar, mas eu quero saber o ambiente. O ambiente era de fraternidade e o Mário, nós éramos amigos e nós partilhávamos as coisas, eu cardeal de São Paulo e ele cardeal de Buenos Aires. Aí quando eu vi que o Bergoglio ia ganhar, eu falei para ele: “não esqueça dos pobres”. E aí veio a votação e ele ganhou e a primeira coisa que o Bergoglio falou para o Cláudio: “não me deixe só”. E aí veio aquela ideia não esqueça os pobres e veio Francisco na cabeça.
Então, está vendo? Tem uma caminhada muito a partir dos pobres e a partir dos pobres chegando à essência do Evangelho. Então, os pobres eles são um caminho de conversão e isso fica bem claro na vida do Papa Francisco. A toda hora, nas exigências que ele faz, às vezes puxa a orelha da gente. Quando ele fala que quando você dá uma esmola você deve olhar no rosto do pobre que pede esmola. Você é capaz de dar uma esmola e olhar nos olhos da pessoa que tá pedindo esmola? Olha a diferença! Eu fiz essa experiência aqui, mas mexe com a gente e a pessoa olhou: “Nossa que bom, doutor – me chamou de doutor – que bom que você olhou para mim”. Francisco de Assis olhava o coração das pessoas e penetrava o olhar, então, ele tem, eu acho, esse paralelo aí está muito claro.

Gostaria de falar sobre sua forte atuação na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, primeiro como presidente de comissão e agora como Presidente do Regional Sul 4. Na nossa última entrevista Dom Guilherme fez uma defesa da CNBB em relação aos ataques pelo Planalto e conservadores. Como o senhor observa esse cenário?
Eu estive durante oito anos na CNBB e só quem está lá para saber os ataques que a gente sofre e só quem está lá para saber o quanto não nos interessa assumir ideologia de esquerda e direita. Isso é muito claro entre nós. Agora, nós temos uma posição muito clara, muito objetiva. uma posição do olhar para o povo e quando você tem esse olhar, você já é considerado esquerda.
Pode observar, quando nós fazemos aqui, por exemplo, sobre políticas públicas. Políticas públicas não tem nada a ver com partido, com política, mas é fazer políticas públicas em cima daquilo que é preciso. E quem que quem que é se alia? É mais o pessoal da esquerda. Então, nós convocamos todos os partidos para todas as reflexões, mesmo aqui no estado. Era para ter um debate outro dia e foi cancelado porque ninguém veio. Viriam só dos dois partidos que eram de esquerda. Quer dizer, não vem e depois critica, isso é hipocrisia. Nós temos as missas mensais na CNBB com parlamentares e vem de todos os partidos: esquerda e direita. Lá não se permite, lá os bispos pegam no pé: escuta está tendo essa medida aí…. Por exemplo, essa questão da reforma [da previdência], é palhaçada isso aí. Não é reforma, é destruição. Reforma seria manter aquilo que é necessário para o povo e cobrar daqueles que estão sonegando. Quer dizer está-se legitimando a sonegação e tira de quem do pobre. Porque a CNBB tem essa posição firme, logo tem os grupos que são a favor e contra.
E aí entra essa radicalização. Os fundamentalistas estão muito ligados à uma ideologia. A CNBB tem uma posição firme. Nós fazemos análise de conjuntura, nessa análise de conjuntura são trazidos cientistas políticos que não tem tendência, porque são cientistas e precisam trazer a verdade. Nós nos apoiamos neles. Por exemplo, quando nós fizemos uma nota. Todas as notas que nós fizemos são avaliados por grandes intelectuais e não por ideólogos, por pessoas de partidos, tanto é que o nosso assessor político não pode ter partido e nem tendência de nenhum lado. Isso para nós é muito forte. Agora, isso não interessa, porque o que nós pregamos não é uma conivência com o sistema do grande poder. A Igreja Católica é a única que é massacrada.
Essa questão da reforma, de onde que ela surgiu? Alguns grupos vieram pedir ajuda para a CNBB e vieram dois grupos de um uma facção e de outra. Nós estávamos fora. Se vocês fizeram um grupo, se derem as mãos e aí nós entramos com apoio. Como apoio. Aí se uniram. Tinham 11 grupos de movimentos sociais e quando a CNBB entrou, em pouco tempo, vieram cento e tantos movimentos. Veio outro dia o grupo da Caixa Econômica, um banco pedindo pelo amor de Deus: CNBB não deixem privatizar. E veio outro grupo da Petrobras. Aí Dom Sérgio [da Rocha, cardeal, presidente da CNBB] disse: já é demais. por que vocês não assumem o papel de vocês e tem que jogar tudo nas costas da CNBB? Então, o pessoal foge. Por defender o nosso povo, nós somos malhados, dando a cara para bater. Então, isso a gente fica indignado.
Hoje, os nossos maiores inimigos não são fora da Igreja, são esses grupos radicais conservadores. Estão aliados ao poder e não querem saber de viver o evangelho na sua essência. Então, por isso, a gente na vê aqueles comentários que a CNBB é da esquerda. Venha conviver com a gente para ver o que é. Nós temos uma Igreja de peso no Brasil para carregar nas costas. Agora, quem está só assistindo, pensa o que quer e diz o que quer e está falando besteira.

Na última eleição o senhor foi envolvido em uma polêmica política partidária. Alegaram que em uma missa o senhor fez referência positiva a Fernando Haddad, candidato a presidente pelo Partido dos Trabalhadores (PT). A diocese de Caçador fez uma nota explicando que não teve nenhuma relação com isso e que o senhor falou sobre Dom Romero, Paulo VI e o evangelho era sobre o jovem rico – aquele que fica triste por não deixar seus bens para seguir Jesus. O senhor gostaria de comentar sobre esse assunto?
Sim, com maior prazer. Você vê como é a hipocrisia. Primeiro, nem pensei em Haddad. Foi o dia que nós lançamos o cinquentenário da Diocese e foi anunciado o Papa Paulo VI como santo e no mesmo dia Dom Óscar Romero. O que que nós fizemos na missa? Foi lida a biografia do Papa e do bispo e nem fui eu. Nem fui eu! Aí eu coloquei um pouco sobre a seriedade de vida. Quem nós vamos seguir? E eu vi que alguns saíram da igreja. Aí no fim um padre lembrou que no outro dia era dos professores e eu dei os parabéns para eles, fiz levantar quantos professores tinham. “Meus parabéns, amanhã é dia de vocês”.
Depois, alguns idiotas colocam que o Bispo tomou posição de partido e mandou os professores votarem no Haddad. Depois nós fomos a Florianópolis, porque tínhamos retiro do clero e inclusive o cara que postou veio aqui falar comigo. Talvez, tenha sido até bom que eu não estava, porque eu não sei o que iria falar. Uma mentira dessa, eu poderia processar. Aí vieram jovens que logo assumiram e postaram que não fiz nada e eles foram muito felizes. Só que a mentira tem mais força do que a verdade. Então, foi isso. Aí você vê a hipocrisia.
Aí pode até interpretar que eu sou mais de esquerda do que direita. Por que? Porque eu vivi forte o tempo da ditadura e eu sabia o que é ser da ditadura e a perseguição que tínhamos. Eu controlava para que não tivesse excesso pelo lado da esquerda nas CEBs, em São Paulo. Nunca você via as esquerdas atacando a Igreja, porque a Igreja era conservadora. Então, hoje como a direitona, por isso pode interpretar, a diretora não tem o poder o que que elas fazem? Aquilo que sempre fez: massacrar, desmoralizar, não ter piedade. É o símbolo da hipocrisia. Então, por isso, eu tenho essa posição. A posição da daquilo que é verdade e de quem que está com a gente. Agora quem é refém desse monopólio da hipocrisia sempre vai dizer que o bispo é comunista. Aliás, até falaram que tinham dois bispos comunistas em Santa Catarina: era eu e o dom Odelir [José Magri]. E o dom Guilherme é muito mais radical nessas questões sociais do que eu. Vamos ver o que vai ser agora em setembro, a Romaria da Terra. A verdade tem que ser dita.

Eu tenho conversado com os bispos sobre a criação de novas dioceses e província eclesiástica e a palavra-chave é necessidade. Hoje em Santa Catarina o senhor acha que é necessário dividir melhor o estado?
Precisamos pensar. A diocese de Caçador tem uma tamanho bom, não precisa mudar. Eu acho que também não precisaria, ceder nenhuma paróquia para outra diocese, porque aqui são bem servidos. Agora se você outras dioceses, a arquidiocese que atendem todo o litoral. Pega em Itajaí, Joinville que vem até em cima da serra em Mafra, aí caberia uma nova diocese. No Oeste, bem no extremo oeste em São Miguel, Chapecó caberia uma nova diocese. Agora, isso é uma questão que nós estamos estudando e não de uma hora para outra. Primeiro, que nós queremos pelo menos mais uma mais uma região eclesiástica, mais uma província. Isso nós estamos estudando e, se nós estamos estudando, é porque tem necessidade. Agora estamos nesse estudo e depois quando tiver alguma coisa, a gente vai divulgar.
Possibilidades de Joinville poderia ser uma província, pegando aqui Lages e Chapecó uma nova diocese. O Núncio não quer menos de quatro ou cinco dioceses por província. Aqui nós temos realidades bem diferentes. Pega Florianópolis para o Sul, é uma cultura. Joinville é outra cultura. Serra acima e para nós é outra cultura. Então, mereceria. Estamos estudando e depois vai para nunciatura e a nunciatura que vai nos dizer.

Créditos: Bruna Bertoldo

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